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quarta-feira, 18 de março de 2015

Noção de Modernidade - 2o. ano do Ensino Médio - FAETEC/ETER - 1a. etapa/2015

FAETEC – ETER
FILOSOFIA – 2O ANO / EM
Prof. Dr. Michell de Mello

Resumo esquemático

1. Noção de modernidade                  

            Estamos nos tempos modernos!!! De fato, mas faz-se mais de 400 anos....
            O termo "modernidade" é, talvez, uma dos mais caros ao homem contemporâneo. Nós nos consideramos modernos porque usamos esta ou aquela roupa, porque vamos a este lugar e não àquele outro, etc. Entretanto, nós não percebemos que estamos totalmente ligados a uma tradição, que por ser moderna, não tem hoje nada de movimento de vanguarda ou libertário para nosso tempo, ao contrário justamente, pois modernidade (do latim arcaico e clássico, modus: medida de superfície e, assim, maneira de se encaminhar, conduta, comportamento) implica  rigidez a um modo preestabelecido. Implica uniformidade e sistematização. É neste sentido rígido do modus  que chamamos o período da Filosofia entre os séculos XV e XIX-XX  de período moderno.
            Em relação a esta fase da Filosofia, podemos considerar  duas noções fundamentais que dão identidade a este período: a idéia de progresso, que faz com que o novo seja considerado melhor que o mais antigo e a valorização do indivíduo ou da subjetividade como lugar privilegiado da certeza e da verdade.

2. Fatores históricos que influenciaram a noção de modernidade

2.1   Fatores remotos (aqueles que se encontram na Baixa Idade Média ou, em termos de Filosofia, na Escolástica, tanto no seu auge como no seu fim).

·       Redescoberta das obras de Aristóteles pelos europeus: durante a primeira fase da Idade Média, também chamada de Alta Idade Média ou Patrística (na Filosofia) durante a qual a principal influência filosófica foi Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho foi formado o imaginário da Medievo. Este desenvolveu seu pensamento através de uma matriz platônica cuja principal característica é uma dualidade ou divisão radical entre ideia e matéria (mundo material e mundo sensível). Assim, formou-se uma mentalidade geral de que a ideia, o conceito, o pensamento é mais real, logo mais importante do que a matéria. Por sua vez, os árabes, após a formação da religião islâmica no séc. VII por Maomé formaram um cultura dentro da região do antigo império helenístico de Alexandre Magno. Sobretudo a partir do califado de Bagdá houve grandes estudos sobre as áreas de conhecimento da cultura grega, não somente de Filosofia, mas também Astronomia, Medicina, Matemática, Física, etc. Esse mesmo povo ou cultura conquistou o norte da África, convertendo ao Islã os povos berberes (palavra que na sua etimologia árabe significa ocidental). A partir daí alcançaram a Península Ibérica estabelecendo nela uma cultura muito mais desenvolvida do que aquela dos europeus latinos cristãos tinham. Córdoba pode ser considerada a cidade melhor desenvolvida do início da Escolástica. A grande importância dos árabes, mulçumanos, para nós neste momento, foi que eles traduziram do grego para o siríaco, depois para o latim, diversas obras de Filosofia, sobretudo Aristóteles, que era praticamente desconhecido na Europa cristã da época (exceto poucos fragmentos). Ora, como sabemos, a filosofia de Aristóteles compreende a realidade ou aquilo que é, o ente, como a unidade de dois princípios: matéria e forma – ao contrário do pensamento platônico que divide a realidade entre estes dois princípios, valorizando mais a forma ou ideia em detrimento da matéria. Com o retorno das obras de Aristóteles ao ocidente cristão começa-se, aos poucos, um revalorização da matéria, e assim, dos estudos ligados ao mundo material, como a medicina, a física, etc. Este foi um primeiro impulso para o pensamento moderno, uma vez que o Aristóteles “científico”, trazido pelos árabes, foi uma das válvulas da chamada nova ciência ou ciência moderna.

·       Surgimento das universidades na Europa: as universidade europeias surgem como um desenvolvimento das escolas monásticas medievais. Todavia, constituem um crescimento não somente no tamanho físico ou de abrangência das escolas monásticas, mas qualitativo, pois vão impulsionar o pensamento europeu ao questionamento das verdades transmitidas pela tradição de origem platônica e agostiniana. Nota-se aqui a relação intrínseca entre o surgimento das universidade e a divulgação do pensamento de Aristóteles trazido à Europa pelos árabes. Mesmo havendo proibições de leitura e ensino em alguns períodos da obra de Aristóteles, ou ainda, muitas críticas por parecer que o Estagirita (Aristóteles) não se enquadra na filosofia cristã agostiniana, o debate proporcionou maior interesse por essa novidade antiga, e como não poderia deixar de ser, o interesse pelas questões materiais, muito além da teologia e da filosofia especulativa. Vejamos que além dos primeiros cursos de Filosofia e Teologia, surgiram duas outras formações acadêmicas: a Medicina e o Direito nas universidades da Europa. Além disto, devido às influências da cultura e pensamento árabes, houve também um crescimento constante do interesse pela matemática e pela observação dos fenômenos naturais – nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos, diz Aristóteles -  que culminará na Revolução Científica do início do período moderno.

·       Nominalismo inglês é classificado pelos historiadores da Filosofia como já um período de decadência da Escolástica ou da Baixa Idade Média. Este foi desenvolvido principalmente na região da Grã-Bretanha e como o seu título reza prega que todos os conceitos (que seriam realidades máximas opostas à matéria, ou pelo menos, precedentes a ela, tanto na tradição agostiniana-platônica quanto na aristotélica-tomista que prega a precedência da forma sobre a matéria em sentido ontológico ou metafísico) são apenas nomes, flactus vocis, sopros de voz. Esse pensamento representa uma mudança radical na mentalidade europeia uma que vez que o conceito é apenas um som, uma voz, e não necessariamente uma realidade última do mundo das ideias ou da mente divina, nem é aquilo que determina a realidade última. A realidade primeira é a coisa que existe – e o que existe nos é dado ou conhecido através dos sentidos. Partimos aqui de um princípio clássico da filosofia platônica quanto à teoria do conhecimento (Fédon):  é o semelhante que conhece o semelhante. Este princípio foi amplamente usado para justificar a imaterialidade da alma intelectiva humana, uma vez que conhece conceitos que não são materiais, a alma também é imaterial. Os nominalistas não negaram em absoluto isto, mas disseram que o homem também é matéria e ao aplicarmos o mesmo conceito, podemos dizer que o homem conhece a matéria uma que vez que também é formado por um componente material. Vale aqui relembrar a máxima aristotélica, novamente, a respeito da teoria do conhecimento: Nada se encontra no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos. A questão para os nominalistas não é negar o conhecimento ipse litteris da realidade imaterial, que é para eles uma voz, mas desvalorizar o conhecimento da matéria, do singular, que parece ter sido a ênfase na tradição escolástica, mesmo nas escolas tomistas. Assim conhecemos a famosa “Navalha de Okham”, sendo este um grande pensador nominalista: Não devemos multiplicar os entes (coisas existentes) sem necessidade. Isto significa que não é necessário a criação de novos conceitos a partir de conceitos, como por exemplo, a vermelhidão do vermelho e ainda o vermelho presente na vermelhidão do vermelho; todavia trata-se muito mais de ver e aplicar-se sobre um ente/coisa concreto que é vermelho, por exemplo, um pedaço de pano. De nada adianta para o conhecimento do pano vermelho a discussão sobre o grau de sua vermelhidão, se o vermelho é real ou falso, mas entender que  este tecido existe e me parece vermelho, quais são suas características físicas como tamanho, durabilidade, etc., devendo assim ser estudado o tecido que existe, o ente real e material, e não ficar criando ou inventando palavras ou termos que em nada contribuem para a melhor compreensão da coisa tecido.



2.2 Fatores próximos (presentes na formação do período moderno em si)

·       O humanismo renascentista: é um período com identidade filosófica própria porque não se confunde  nem com o período clássico e medieval da Filosofia e nem com o pensamento moderno em si, mas teve influência determinante no desenvolvimento da filosofia moderna. "O homem é a medida de todas as coisas",  foi o lema assumido de Protágoras pelos humanistas, rompendo diretamente com o período medieval e com sua cosmovisão quase sempre teocêntrica. Como motivação, buscava-se retornar ao métodos greco-romanos pagãos, buscando neles e no seu desenvolver estético  um novo ideal  de homem, com uma forte valorização do eu  de cada indivíduo. Nas artes, valorizava-se  o corpo humano como dotado de beleza própria que se expressa na sua proporção  e em suas linhas harmoniosas, pois o homem é um deus não em sentido absoluto, porque é um homem, mas é um deus humano. (Nicolau de Cusa) Foi durante o Humanismo que foi cunhado o termo Idade Média, mostrando um desejo de retornar ao período clássico do pensamento, considerando assim um período de mil anos ou mais como um meio entre o clássico greco-latino e o moderno. O Renascimento é marcado pelo antropomorfismo das artes (formas humanas nas obras de arte) ao contrário do teomorfismo (formas segradas na artes). Ao observarmos um pintura de um rei ou nobre medieval ele nos parece um santo, não humano, acima de nossa condição humana; já ao observarmos uma obra de arte renascentista podemos vislumbrar figuras religiosas como Maria, os santos e Jesus com traços claramente humanos, ou seja, antropomórficos. Fica caracterizado nesse período também o clássico didático da passagem do teocentrismo ou antropocentrismo, ou seja, Deus deixa de ser o centro das atenções para ser o homem este centro. Existem autores que discutem gravemente esta interpretação, mas para fim didáticos resolvemos mantê-la aqui para assinalar a mudança de mentalidade na passagem do Medievo para a Modernidade via período do Renascimento.

·       Reforma protestante: a reforma religiosa e sócio-política iniciada por Lutero é paradoxal, pois este ao negar a liberdade do homem frente à vontade absoluta de Deus , ou seja, o servo-arbítrio ("agir contra a própria consciência não é seguro para nós, nem depende de nós." Lutero) é um retrocesso quanto às ideias renascentistas; todavia, ao afirmar que só a fé individual  pode salvar, impulsionou as crença da subjetividade, típica do humanismo. Esta fé individual é manifestada na tese da livre interpretação da bíblia, na qual cada indivíduo pode escutar a voz de Deus presente nas  escrituras. Outra tese de Lutero que corrobora para o surgimento da Modernidade é o sacerdócio comum a todos os fiéis, isto significa que cada indivíduo pode servir como ponte entre o humano e o divino, não restringindo esta relação somente aos clérigos ordenados pela Igreja. Podemos ainda acrescentar a importância da língua nacional no serviço religioso no lugar do latim que afirma o caráter subjetivo (e nacionalista) da Reforma protestante. É nesse momento que se começa a escrever ensaios científicos, de forma cada mais crescente, na língua de casa país e a se utilizar cada vez menos o latim. O latim continua a ser uma língua científica importante, uma língua franca, mas escrever ou traduzir estas ideias para o vernáculo ou idioma nacional não é mais algo “pecaminoso” ou mal-visto.

·       A revolução científica: inicia-se com a tese de Copérnico que defendia matematicamente o heliocentrismo. Contudo, tal tese ia contra ao geocentrismo que havia já há 2000 anos  e refletia a própria cosmovisão medieval e antiga do mundo. A ciência moderna surge quando se torna mais importante salvar os fenômenos  e quando a observação, a experimentação  e a verificação de hipóteses  tornam-se critérios decisivos para o conhecimento, suplantando, assim, o método metafísico. A Revolução Científica quebra o paradigma de que o conhecimento tradicional está sempre correto e é inquestionável e ainda acrescenta um elemento típico da modernidade: o progresso, ou seja, o novo é melhor do que antigo.

            Novidades decorrentes da Revolução Científica:
·       quanto à cosmologia: validade do modelo heliocêntrico;
·       quanto à ciência: observação e o método experimental;
·       mecanicismo: o universo e tudo que há nele funciona como uma máquina
"O universo é um livro escrito em linguagem geométrica; para compreendê-la é necessário aprender a ler esta linguagem." Galileu Galilei

·       Redescoberta do ceticismo antigo: com o Renascimento foram redescobertas e traduzidas para as línguas nacionais várias obras clássicas do pensamento grego e helenístico e começa a existir um interesse crescente por este aspecto. Um destes aspectos importantes aqui é a redescoberta do ceticismo antigo, sobretudo o de Pirro, que propõe suspender o juízo dada a impossibilidade de se ter certeza, tanto afirmativa como negativa, sobre algo. A dúvida passa a ser considerada o primeiro degrau para grau qualquer investigação científica e filosófica, uma vez que as próprias certezas da tradição (sobretudo medieval) transmitidas são questionadas. O começo do conhecimento, podemos dizer, não está na certeza que temos sobre determinada realidade, mas a dúvida sobre ela que pode nos conduzir a determinado conhecimento que afirme ou contradiga o antigo, mas que ainda não se sabe. Somente com a dúvida pode-se alcançar o progresso  e o novo, uma vez que a certeza significa estagnar naquilo que se acredita já saber.

Referência Bibliográfica básica:
KUNZMANN, Peter & All. Atlas der Philosophie. München: Deutscher Taschenbuch, 2003
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 2005

ENDERS, Armelle & All. História em curso: da antiguidade à globalização. Rio de Janeiro: Editora do Brasil/ FGV, 2008.

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