FAETEC – ETER
FILOSOFIA – 2O ANO / EM
Prof. Dr. Michell de Mello
Resumo esquemático
1. Noção de modernidade
Estamos nos tempos modernos!!! De
fato, mas faz-se mais de 400 anos....
O
termo "modernidade" é, talvez, uma dos mais caros ao homem
contemporâneo. Nós nos consideramos modernos porque usamos esta ou aquela
roupa, porque vamos a este lugar e não àquele outro, etc. Entretanto, nós não
percebemos que estamos totalmente ligados a uma tradição, que por ser moderna,
não tem hoje nada de movimento de vanguarda ou libertário para nosso tempo, ao
contrário justamente, pois modernidade (do latim arcaico e clássico, modus: medida de superfície e, assim,
maneira de se encaminhar, conduta, comportamento) implica rigidez a um modo preestabelecido.
Implica uniformidade e sistematização. É neste sentido rígido do modus
que chamamos o período da Filosofia entre os séculos XV e XIX-XX de período moderno.
Em
relação a esta fase da Filosofia, podemos considerar duas noções fundamentais que dão identidade a
este período: a idéia de progresso, que faz com que o novo seja
considerado melhor que o mais antigo e a valorização do indivíduo ou da subjetividade como lugar privilegiado da
certeza e da verdade.
2. Fatores históricos que influenciaram a
noção de modernidade
2.1
Fatores
remotos (aqueles que se encontram na Baixa Idade Média ou, em termos de
Filosofia, na Escolástica, tanto no seu auge como no seu fim).
· Redescoberta
das obras de Aristóteles pelos europeus: durante a primeira fase da Idade Média, também
chamada de Alta Idade Média ou Patrística (na Filosofia) durante a qual a
principal influência filosófica foi Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho foi
formado o imaginário da Medievo. Este desenvolveu seu pensamento através de uma
matriz platônica cuja principal característica é uma dualidade ou divisão
radical entre ideia e matéria (mundo material e mundo sensível). Assim,
formou-se uma mentalidade geral de que a ideia, o conceito, o pensamento é mais
real, logo mais importante do que a matéria. Por sua vez, os árabes, após a
formação da religião islâmica no séc. VII por Maomé formaram um cultura dentro
da região do antigo império helenístico de Alexandre Magno. Sobretudo a partir
do califado de Bagdá houve grandes estudos sobre as áreas de conhecimento da
cultura grega, não somente de Filosofia, mas também Astronomia, Medicina,
Matemática, Física, etc. Esse mesmo povo ou cultura conquistou o norte da
África, convertendo ao Islã os povos berberes (palavra que na sua etimologia
árabe significa ocidental). A partir daí alcançaram a Península Ibérica
estabelecendo nela uma cultura muito mais desenvolvida do que aquela dos
europeus latinos cristãos tinham. Córdoba pode ser considerada a cidade melhor
desenvolvida do início da Escolástica. A grande importância dos árabes,
mulçumanos, para nós neste momento, foi que eles traduziram do grego para o
siríaco, depois para o latim, diversas obras de Filosofia, sobretudo
Aristóteles, que era praticamente desconhecido na Europa cristã da época
(exceto poucos fragmentos). Ora, como sabemos, a filosofia de Aristóteles
compreende a realidade ou aquilo que é, o ente, como a unidade de dois
princípios: matéria e forma – ao contrário do pensamento platônico que divide a
realidade entre estes dois princípios, valorizando mais a forma ou ideia em
detrimento da matéria. Com o retorno das obras de Aristóteles ao ocidente
cristão começa-se, aos poucos, um revalorização da matéria, e assim, dos
estudos ligados ao mundo material, como a medicina, a física, etc. Este foi um
primeiro impulso para o pensamento moderno, uma vez que o Aristóteles
“científico”, trazido pelos árabes, foi uma das válvulas da chamada nova
ciência ou ciência moderna.
· Surgimento
das universidades na Europa:
as universidade europeias surgem como um desenvolvimento das escolas monásticas
medievais. Todavia, constituem um crescimento não somente no tamanho físico ou
de abrangência das escolas monásticas, mas qualitativo, pois vão impulsionar o
pensamento europeu ao questionamento das verdades transmitidas pela tradição de
origem platônica e agostiniana. Nota-se aqui a relação intrínseca entre o
surgimento das universidade e a divulgação do pensamento de Aristóteles trazido
à Europa pelos árabes. Mesmo havendo proibições de leitura e ensino em alguns
períodos da obra de Aristóteles, ou ainda, muitas críticas por parecer que o
Estagirita (Aristóteles) não se enquadra na filosofia cristã agostiniana, o
debate proporcionou maior interesse por essa novidade antiga, e como não
poderia deixar de ser, o interesse pelas questões materiais, muito além da
teologia e da filosofia especulativa. Vejamos que além dos primeiros cursos de
Filosofia e Teologia, surgiram duas outras formações acadêmicas: a Medicina e o
Direito nas universidades da Europa. Além disto, devido às influências da
cultura e pensamento árabes, houve também um crescimento constante do interesse
pela matemática e pela observação dos fenômenos naturais – nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos,
diz Aristóteles - que culminará na
Revolução Científica do início do período moderno.
· Nominalismo inglês é classificado pelos historiadores
da Filosofia como já um período de decadência da Escolástica ou da Baixa Idade
Média. Este foi desenvolvido principalmente na região da Grã-Bretanha e como o
seu título reza prega que todos os conceitos (que seriam realidades máximas
opostas à matéria, ou pelo menos, precedentes a ela, tanto na tradição
agostiniana-platônica quanto na aristotélica-tomista que prega a precedência da
forma sobre a matéria em sentido ontológico ou metafísico) são apenas nomes, flactus vocis, sopros de voz. Esse
pensamento representa uma mudança radical na mentalidade europeia uma que vez
que o conceito é apenas um som, uma voz, e não necessariamente uma realidade
última do mundo das ideias ou da mente divina, nem é aquilo que determina a
realidade última. A realidade primeira é a coisa que existe – e o que existe
nos é dado ou conhecido através dos sentidos. Partimos aqui de um princípio
clássico da filosofia platônica quanto à teoria do conhecimento (Fédon): é o
semelhante que conhece o semelhante. Este princípio foi amplamente usado
para justificar a imaterialidade da alma intelectiva humana, uma vez que conhece
conceitos que não são materiais, a alma também é imaterial. Os nominalistas não
negaram em absoluto isto, mas disseram que o homem também é matéria e ao
aplicarmos o mesmo conceito, podemos dizer que o homem conhece a matéria uma
que vez que também é formado por um componente material. Vale aqui relembrar a
máxima aristotélica, novamente, a respeito da teoria do conhecimento: Nada se encontra no intelecto que não tenha
passado antes pelos sentidos. A questão para os nominalistas não é negar o
conhecimento ipse litteris da
realidade imaterial, que é para eles uma voz, mas desvalorizar o conhecimento
da matéria, do singular, que parece ter sido a ênfase na tradição escolástica,
mesmo nas escolas tomistas. Assim conhecemos a famosa “Navalha de Okham”, sendo
este um grande pensador nominalista: Não devemos multiplicar os entes
(coisas existentes) sem necessidade. Isto significa que não é necessário a
criação de novos conceitos a partir de conceitos, como por exemplo, a
vermelhidão do vermelho e ainda o vermelho presente na vermelhidão do vermelho;
todavia trata-se muito mais de ver e aplicar-se sobre um ente/coisa concreto
que é vermelho, por exemplo, um pedaço de pano. De nada adianta para o
conhecimento do pano vermelho a discussão sobre o grau de sua vermelhidão, se o
vermelho é real ou falso, mas entender que
este tecido existe e me parece vermelho, quais são suas características
físicas como tamanho, durabilidade, etc., devendo assim ser estudado o tecido
que existe, o ente real e material, e não ficar criando ou inventando palavras
ou termos que em nada contribuem para a melhor compreensão da coisa tecido.
2.2 Fatores próximos (presentes na formação
do período moderno em si)
· O humanismo renascentista: é um período com identidade filosófica
própria porque não se confunde nem com o
período clássico e medieval da Filosofia e nem com o pensamento moderno em si,
mas teve influência determinante no desenvolvimento da filosofia moderna.
"O homem é a medida de todas as coisas", foi o lema assumido de Protágoras pelos
humanistas, rompendo diretamente com o período medieval e com sua cosmovisão
quase sempre teocêntrica. Como motivação, buscava-se retornar ao métodos
greco-romanos pagãos, buscando neles e no seu desenvolver estético um novo ideal
de homem, com uma forte valorização do eu de cada indivíduo.
Nas artes, valorizava-se o corpo humano
como dotado de beleza própria que se expressa na sua proporção e em suas linhas harmoniosas, pois o homem é um deus não em sentido absoluto,
porque é um homem, mas é um deus humano. (Nicolau de Cusa) Foi durante o
Humanismo que foi cunhado o termo Idade Média, mostrando um desejo de retornar
ao período clássico do pensamento, considerando assim um período de mil anos ou
mais como um meio entre o clássico greco-latino e o moderno. O Renascimento é
marcado pelo antropomorfismo das artes (formas humanas nas obras de arte) ao
contrário do teomorfismo (formas segradas na artes). Ao observarmos um pintura
de um rei ou nobre medieval ele nos parece um santo, não humano, acima de nossa
condição humana; já ao observarmos uma obra de arte renascentista podemos
vislumbrar figuras religiosas como Maria, os santos e Jesus com traços
claramente humanos, ou seja, antropomórficos. Fica caracterizado nesse período
também o clássico didático da passagem do teocentrismo ou antropocentrismo, ou
seja, Deus deixa de ser o centro das atenções para ser o homem este centro.
Existem autores que discutem gravemente esta interpretação, mas para fim
didáticos resolvemos mantê-la aqui para assinalar a mudança de mentalidade na
passagem do Medievo para a Modernidade via período do Renascimento.
· Reforma protestante: a reforma religiosa e sócio-política
iniciada por Lutero é paradoxal, pois este ao negar a liberdade do homem frente
à vontade absoluta de Deus , ou seja, o servo-arbítrio ("agir contra a própria consciência não é
seguro para nós, nem depende de nós." Lutero) é um retrocesso quanto
às ideias renascentistas; todavia, ao afirmar que só a fé individual pode salvar,
impulsionou as crença da subjetividade, típica do humanismo. Esta fé individual
é manifestada na tese da livre interpretação da bíblia, na qual cada indivíduo
pode escutar a voz de Deus presente nas
escrituras. Outra tese de Lutero que corrobora para o surgimento da
Modernidade é o sacerdócio comum a todos os fiéis, isto significa que cada indivíduo
pode servir como ponte entre o humano e o divino, não restringindo esta relação
somente aos clérigos ordenados pela Igreja. Podemos ainda acrescentar a
importância da língua nacional no serviço religioso no lugar do latim que
afirma o caráter subjetivo (e nacionalista) da Reforma protestante. É nesse
momento que se começa a escrever ensaios científicos, de forma cada mais
crescente, na língua de casa país e a se utilizar cada vez menos o latim. O
latim continua a ser uma língua científica importante, uma língua franca, mas
escrever ou traduzir estas ideias para o vernáculo ou idioma nacional não é
mais algo “pecaminoso” ou mal-visto.
· A revolução científica: inicia-se com a tese de Copérnico que
defendia matematicamente o heliocentrismo. Contudo, tal tese ia contra ao
geocentrismo que havia já há 2000 anos e
refletia a própria cosmovisão medieval e antiga do mundo. A ciência moderna
surge quando se torna mais importante salvar os fenômenos e quando a observação, a experimentação e a verificação de hipóteses tornam-se critérios decisivos para o
conhecimento, suplantando, assim, o método metafísico. A Revolução Científica
quebra o paradigma de que o conhecimento tradicional está sempre correto e é
inquestionável e ainda acrescenta um elemento típico da modernidade: o
progresso, ou seja, o novo é melhor do que antigo.
Novidades
decorrentes da Revolução Científica:
· quanto à cosmologia: validade do modelo
heliocêntrico;
· quanto à ciência: observação e o método
experimental;
· mecanicismo: o universo e tudo que há nele
funciona como uma máquina
"O universo é um livro escrito em linguagem
geométrica; para compreendê-la é necessário aprender a ler esta linguagem."
Galileu Galilei
· Redescoberta do ceticismo antigo: com o Renascimento foram redescobertas e
traduzidas para as línguas nacionais várias obras clássicas do pensamento grego
e helenístico e começa a existir um interesse crescente por este aspecto. Um
destes aspectos importantes aqui é a redescoberta do ceticismo antigo,
sobretudo o de Pirro, que propõe suspender o juízo dada a impossibilidade de se
ter certeza, tanto afirmativa como negativa, sobre algo. A dúvida passa a ser
considerada o primeiro degrau para grau qualquer investigação científica e
filosófica, uma vez que as próprias certezas da tradição (sobretudo medieval)
transmitidas são questionadas. O começo do conhecimento, podemos dizer, não está
na certeza que temos sobre determinada realidade, mas a dúvida sobre ela que
pode nos conduzir a determinado conhecimento que afirme ou contradiga o antigo,
mas que ainda não se sabe. Somente com a dúvida pode-se alcançar o
progresso e o novo, uma vez que a
certeza significa estagnar naquilo que se acredita já saber.
Referência
Bibliográfica básica:
KUNZMANN, Peter
& All. Atlas der Philosophie.
München: Deutscher Taschenbuch, 2003
MARCONDES, Danilo.
Iniciação à História da Filosofia:
dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Zahar, 2005
ENDERS, Armelle
& All. História em curso: da
antiguidade à globalização. Rio de Janeiro: Editora do Brasil/ FGV, 2008.
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