O pensamento Pré-socrático
Como
vimos, uma das principais características da filosofia grega em seus primórdios
foi a busca por um princípio (a)rxh/) que explicasse a origem de todas as coisas. No
primeiro momento da filosofia grega acreditava-se que este princípio se
encontrava na natureza ou fu/sij, por isto eles foram também chamados de naturalistas
ou físicos.
O mais importante neste momento da filosofia para nós é observar que é a
primeira vez na história da humanidade em que o homem busca uma explicação para
a realidade exclusivamente na reflexão racional sem recorrer ao mito.
O
importante aqui não são tanto as respostas destes primeiros filósofos, que num
primeiro momento podemos pensar que se trata de algo ingênuo. Todavia, o
importante de fato é a pergunta proposta e o método utilizado: o que é isto? Há
um princípio ou elemento do qual todas as coisas são formadas? Posso conhecer
este princípio ou a)rxh/ sem o auxílio dos mitos?
O
termo pré-socrático é mais um termo histórico e didático do que uma determinação real de uma
época filosófica. Ele faz referência à figura de Sócrates, dado que este
filósofo representa um marco na filosofia – como veremos mais adiante. Todos os
filósofos antes de Sócrates podem ser chamados didaticamente pré-socráticos,
contudo convém ainda assinalar que não há uma uniformidade em sentido absoluto
destes primeiros pensadores. Por outro lado, há características comuns a todos
eles, tais como a busca pela a)rxh/ e temas relacionados à fu/sij.
Resta-nos
outra observação sobre este período: as obras. Quase todas as obras que foram
produzidas nesta foram perdidas na antigüidade, e muitas delas sequer foram
escritas, dado que a tradição grega antiga estava fortemente baseada na
tradição oral. Dispomos apenas de alguns fragmentos e de comentários de
filósofos posteriores[1]
(a chamada doxografia) que nos permitem uma tentativa da reconstrução da
obra e do pensamento dos primeiros filósofos.
De
modo esquemático, procuramos destacar os principais filósofos deste período:
MONISTAS
Escola jônica: são também chamados de
físicos ou naturalistas pelo seu foco de interesse.
- Tales de Mileto (fl. c. 585 a.C.) e seus
discípulos Anaxímandro (fl. início séc. V a. C.) e Anaxímenes (fl. c. 585-480
a. C.). Juntos eles formam a chamada Escola de Mileto.
A a)rxh:
Tales: a água.
Anaxímandro: o ápeiron (a)/peiron), ou o indeterminado.
Anaxímenes: o ar ou pneuma (pneu=ma).
Escola italiana: possui uma visão de mundo
mais abstrato do que a escola jônica, ou seja, uma explicação menos naturalista
da realidade.
- Pitágoras de Samos (fl. c. 530 a. C.): o número
como a)rxh/.
- Parmênides de Eléia (fl. c. 500 a. C.): veremos
mais à frente.
PLURALISTAS
- Anaxágoras de Clazômena (fl. c. 500): as
homeomerias como a)rxh/, pois a realidade é formada por uma multiplicidade
infinita de elementos.
- Empédocles de Agrigento (fl. c. 450 a. C.): a)rxh/ é composta pelos quatro
elementos (fogo, ar, água e ar).
- os atomistas:
Leucipo de Abdera (fl. c. 400 a. C.): possível fundador do atomismo.
Demócrito de Abdera
(fl. c. 370 a. C.): a realidade é constituída por átomos e pelo vazio; no
movimento dos átomos se desenvolve os fenômenos aos quais temos acessos.
A
primeira grande querela da filosofia: mobilismo versus monismo
O
mobilismo de Heráclito de Éfeso
Heráclito
foi conhecido desde a antigüidade como o obscuro. Segundo Heráclito, a
realidade é formada pelo movimento, pois todas as coisas estão em fluxo. É
conhecida a frase de Heráclito pa/nta r(ei/, “tudo flui”. Outro ponto central no
pensamento de Heráclito é a noção de lo(goj (lógos) que é o princípio
unificador da realidade em movimento. Através do lógos a realidade é vista como
conflito entre os opostos que gera o movimento. Este conflito gera o equilíbrio
que mantém a realidade. Por isto, Heráclito toma o fogo (pu/r) é tomado por Heráclito
como o elemento primordial da realidade, pois representa bem tanto o movimento
constante como o conflito permanente dos opostos. A chama representa a energia
que se autoconsome, tal como o caráter dinâmico da realidade.
“Não
podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é mais o mesmo.”
O monismo de Parmênides de
Eléia
Parmênides
pode ser considerado um adversário porque afirmava a existência de uma
realidade única. Ele parte da distinção entre aparência e realidade. O
movimento, segundo Parmênides e os eleatas, era apenas aparente; não a
realidade como afirmou Heráclito.
A verdadeira realidade para ele é única, eterna, imóvel,
eterna, imutável, sem principio, contínua e indivisível. Esta realidade é o ser, que Parmênides considera
como esférico.
Em
relação ao movimento, Parmênides demonstra que ele é apenas aparência, dado que
em toda mudança, deve permanecer algo. Este algo é o ser. O ser é base fundante
da lei da identidade:
“O
ser é e o não-ser não é.”
O
movimento representa o não-ser, por isto é aparência. Além disto, Parmênides
afirma que “pensar e ser é o mesmo”, e é isto que permite ao homem
pensar a realidade, ou seja, pensar o ser. Por isto, o pensamento deve se
afastar da opinião, que é apenas aparência, tal como o movimento. Ou melhor, o
próprio movimento é uma opinião e deve ser evitado, dado que a realidade é o
ser.
Ludicidade da chamada primeira querela da Filosofia:
O paradoxo de Zenão de Eléia
Trata-se
de um argumento reductio ad absurdum. Aquiles e uma tartaruga disputam uma
corrida. Aquiles dá uma vantagem à tartaruga. Para alcançá-la, Aquiles deveria
antes percorrer metade do caminho. Quando Aquiles chegar à metade do caminho
até a tartaruga, esta já teria percorrido um pouco mais. Então ele deveria
percorrer novamente até a metade da nova distância, e assim ao infinito. Isto
quer dizer que o espaço pode ser dividido até ao infinito, não havendo o
movimento. O movimento é apenas uma ilusão dos sentidos.











Nenhum comentário:
Postar um comentário
Sinta-se livre para expressar sua opinião.