1. Introdução e etimologia
Muitas vezes ao falarmos do termo cultura nos
deparamos com um grande problema da nossa linguagem: chamamos de algo cultura
uma peça de teatro, vista no Municipal, e também não podemos falar que um
indígena da Amazônia não tem cultura; ao contrário, ouvimos constantemente
expressões do tipo “cultura indígena, cultura tupi, língua guarani, etc.”
O termo cultura pode, assim, possuir diversos
significados, destacando-se:
-
cultura como Ausbildung, ou seja, formação de indivíduo: (die Bildung, em alemão, que vem do verbo bilden, formar); em
sentido estrito, é formar, dar forma a algum conteúdo aprendido em instituição
educativa.
-
cultura como
Kultur conjunto de criações ou
"cultivamento" da natureza por um determinado povo ( die Kultur, em alemão, do latim colere: colher, cultivar). São todas
aquelas manifestações culturais aprendidas em ambientes não formais, como
família, clube, grupo de amigos na rua ou colégio e que se aprende de forma
“natural”.
2. Breve histórico da Cultura
É demasiado ousado falarmos em
"história" da cultura aqui, dado
que essa só passou a ser objeto de estudo de modo independente da antropologia filosófica a partir
do século XVIII com os iluministas. Assim, antes de tudo, observa-se a
noção/conceito de homem na história do
pensamento para se estabelecer ou identificar
possíveis relações culturais.
· filosofia
antiga (séc. VI a.C. ao II d.C.)
A cultura corresponde basicamente à paide/ia grega e/ou a
humanitas latina. Era a educação do
homem como tal, ou seja, educação devida às "boas artes " peculiares
do homem, que o distinguem de todos os outros animais. Para os gregos, significava a busca e a realização do que o homem faz
de si mesmo em estreita conexão com a Filosofia e com a sociedade em geral. O
homem só se realiza através do conhecimento de si mesmo e do mundo na p/olij, cidade-estado grega. Como
exemplo, podemos observar estes aspectos da cultura grega nas obras de Platão,
em especial em A República e na Política, de Aristóteles.
Neste caso, a natureza humana não é algo
empiricamente comprovado, mas corresponde
ao termo da formação do homem, ao seu fim último e à sua felicidade plena que
corresponde à noção de idéia em
Platão e de forma em Aristóteles.
Assim, a idéia de cultura na antigüidade clássica era:
-
Aristocrática: era algo destinado aos nobres e
ao mesmo tempo tornava quem a possuía também um nobre, causando uma revolução,
onde a nobreza era considerada algo
hereditário e não adquirido por mérito (esta tradição meritocrática inicia-se
com Platão);
-
Naturalista: era considerada como um
aperfeiçoamento da natureza;
-
Contemplativa: havia a necessidade de uma vida
de contemplação para se adquirir a realização plena da natureza humana (o fim
da cultura).
· filosofia
medieval (séc. II-III ao XIV)
Neste período, conserva-se o conceito de cultura
herdado da antigüidade, permanecendo ainda como algo aristocrático e
contemplativo, todavia a preparação do homem visava a vida eterna. Assim, a
filosofia e a cultura em geral assumiu um papel propedêutico fundamental como
preparação para a teologia (Philosophia
ancillae theologiae).
· filosofia moderna (séc. XV ao XVIII-XIX)
1.
Renascimento: restituição do caráter naturalista
da cultura perdido no período medieval em função da posição propedêutica da
cultura.
2.
Iluminismo: a cultura passou a ser entendida não
só quanto à sua função antropológica,
mas também quanto ao seu papel etnológico. Assim, rompe-se com o caráter aristocrático da cultura que
passa a dever ser acessível a todos. Todavia,
foi também a partir do Iluminismo
que a cultura passou a ser identificada
com o "enciclopedismo".
· filosofia
contemporânea (Séc. XIX-XX até os nossos dias)
É caracterizado pela crítica ao
"enciclopedismo" e ao
positivismo que privilegiava as ciências exatas. Passa a cultura a ser
compreendida como o conjunto dos modos de vida criados, adquiridos e
transmitidos de uma geração para a outra, entre os membro de uma determinada
sociedade. Segundo diz Spengler, é a
civilização o aperfeiçoamento e o fim de uma cultura.
3. Algumas posturas contemporâneas
-
Idealistas: Cassirer, Croce,
Gentile, Husserl: vêm na cultura de um povo as várias etapas de consciência do
Absoluto.
-
Vitalistas: Dilthey e Spengler:
consideram a cultura como a expressão máxima da vida;
-
Marxistas: Marx e seus
seguidores: interpretam a cultura como reflexo das condições econômicas de uma sociedade;
-
Estruturalistas: Lévi-Strauss e
Foucault: a cultura é fruto do pensamento inconsciente.
Observação
importante:
Elementos constitutivos da cultura:
-
a língua: sustenta a pilastra simbólica;
-
os costumes: sustentam a pilastra ética;
-
as técnicas: sustentam a pilastra tecnológica.
4 . Cultura e natureza
Noção de natureza: o conceito de natureza não
possui uma definição unilateral, ou seja, não possui sentido unívoco. Ao
contrário, natureza é um conceito análogo que possui uma gama de definições.
Quanto à etimologia, a palavra NATUREZA vem do
verbo em latim nascor, que significa
“nascer” – assim, natureza seria tudo aquilo que brota livremente no mundo, sem
interferência do homem. Pode-se mesmo opor Cultura (o que o homem produz) à
natureza (aquilo que o homem já encontra pronto no mundo).
Muito interessante é a origem da palavra na
Grécia, natureza em grego é fu/sij (phýsis) e também vem do verbo nascer, mas em
grego, que se diz fu/w
(phýo). Assim, na Filologia, Física e Natureza são sinônimos. Vamos ainda além
dessa reflexão:
Podemos
destacar:
1.
natureza como princípio do movimento ou
substância
É a noção mais antiga sobre o termo
"natureza" e condicionou o seu uso, como por exemplo, "deve-se
seguir a natureza". Assim, natureza é o princípio de vida que cuida bem
dos seres em que se manifesta. Aristóteles cita na Física , II, 1, 192b20: A
natureza é o princípio e a causa do movimento e do repouso da coisa à qual ele inere primariamente e por si, e
não por acidente. Deste modo, pode-se compreender natureza como causa tanto
eficiente como também final.
2.
natureza como ordem e necessidade
É assim entendida desde o período moderno, em
especial, pelos filósofos-cientistas. Nilton afirmou que a natureza é bastante concordante e consonante consigo mesma. (In.
Optiks, 1704, III, 1, q. 31).
3.
Natureza como manifestação do espírito
Natureza passa a ser considerada como a
exteriorização da consciência-de-si (Selbstbewusstsein)
nos seus mais diversos níveis. A natureza
é a idéia na forma de ser outro. (Hegel)
5.
Relações entre cultura e natureza
A questão a ser travada aqui é complexa, mas
simples de se formular: a cultura se opõe diretamente à natureza? Se sim, o que
devemos valorizar e seguir: a cultura ou a natureza? Se não, como se relacionam
cultura e natureza?
· "A
cultura é aquilo que se acrescenta à natureza. Desta forma, cultura é o aspecto
subjetivo da humanidade, já a natureza corresponde ao seu aspecto objetivo
porque é comum a todos."
· " O
objetivo da cultura está no fato de ser algo propriamente humano, pode-se até
afirmar que o homem é naturalmente
cultura.[ii]"
· "Deve-se
se distinguir com rigor aquilo que se me apresenta como realidade (natureza) e
o que já é solução/interpretação (cultura). A cultura surge como uma
interpretação necessária da natureza.[iii]"
· "O homem
só será pleno quando retornar à natureza.[iv] "
6
Cultura e antropologia
· "A
liberdade, enquanto espontaneidade pessoal sempre ativa do centro espiritual do
homem - do homem no interior do homem - é a condição primeira e mais fundamental de qualquer possibilidade
de cultura e esclarecimento humanos."
· "A
terrível massificação da vida (...) é
esta uma razão essencial por que a cultura
é tão difícil hoje e por que ao mesmo
tempo ela se torna absolutamente necessária como um meio poderoso a ser usado
pelas novas elites genuinamente cultas (...). "
· "Aquele
que quer cultivar a si mesmo ou ao outro, na medida em que for possível
fazê-lo, precisa possuir uma compreensão clara de três espécies de problemas. Primeiro: qual é, em geral, a
"essência" da cultura? Segundo: Como
se produz a cultura? E terceiro: que espécies e formas do saber e do
conhecimento condicionam e determinam o homem um ser "culto"?"
· "A
cultura é, portanto, uma categoria do ser, não do saber e da experiência. (...)
Um tal "universo", resumindo-se e resumido.[v]"
· "Quando
o homem se põe a estudar a cultura, não faz senão estudar a si mesmo."
· "No
homem culto, ao contrário, os conhecimentos transformam-se em razão de vida, em
dimensão do seu ser. O erudito geralmente é um homem árido, enquanto que o
homem culto se mostra aberto a todas as palpitações da vida.[vi]"
7
Cultura e sociedade
Leis
de Erich Fromm:
· As idéias
podem torna-se forças poderosas, mas só na medida em que sejam respostas a
necessidades preeminentes em um dado caráter social.
· A função
subjetiva do caráter para a pessoa normal é levá-la a agir de acordo com o que é necessário para
ela sob um ponto de vista prático e
também proporcionar-lhe satisfação psicológica através de sua atividade.
· O caráter
social interioriza necessidades externas
e destarte aproveita a energia humana para as tarefas de um dado sistema
econômico e social.
· A família
pode ser assim considerada como o agente psicológico da sociedade.
· Apesar do
desenvolvimento do caráter se talhado pelas condições básicas da vida e apesar de não haver uma
natureza humana biologicamente fixada, esta natureza humana tem um dinamismo próprio que constitui
um fator atuante na evolução da processo social[vii].
Roteiro
de estudos
1.
Defina com suas palavras o termo cultura.
2.
Quais as principais concepções de cultura na
história do pensamento ocidental?
3.
A língua, os costumes e as técnicas são
suficientes para se ter uma cultura em sentido pleno? Justifique.
4.
Natureza. O que podemos compreender por este
termo?
5.
Estabeleça relações formais entre cultura e
natureza.
6.
Você concorda com a tese de retorno à natureza
de Rousseau? Por quê?
7.
Relacione a visão filosófica de Scheler com a de
Julián Marías quanto à cultura e à
antropologia.
8.
Segundo Fromm, como você observa a postura do
autor nas relações cultura e sociedade?
Referência
bibliográfica:
ABBAGNANNO,
N. Dicionário
de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CASSIRER,
E. Antropologia Filosófica. São
Paulo: Mestre Jou, 1977.
REALE,
M. Paradigmas da cultura contemporânea.
São Paulo: Saraiva, 1996.
______.
Introdução à Filosofia. São Paulo:
Saraiva, 1994
MARÍAS,
J. Introdução à Filosofia. São Paulo:
Duas Cidades, s/d.
ROUSSEAU,
J. J. Do contrato social. São Paulo:
Martins Claret, 2001.
FROMM,
E. O medo à liberdade. Rio de
Janeiro: Zahar, 1970
SCHELER,
M. Visão filosófica do mundo. São
Paulo: Perspectiva, 1986
NIETZSCHE,
F. Assim falou Zaratustra. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
[ii] CASSIRER, E. Antropologia Filosófica: ensaios sobre
o homem. 2 ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
[iii] MARIÁS, J. Introdução à filosofia. São Paulo: Duas
Cidades, s/d.
[iv] ROUSSEAU,
J.J. Do contrato social. São Paulo:
Martins Claret, 2001
[v] SCHELER, M. Visão Filosófica do mundo. São Paulo:
Perspectiva, 1986
[vi] MARIÁS, J. Introdução à filosofia. São Paulo: Duas
Cidades, s/d.
[vii] FROMM, E. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1970
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