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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Introdução aos estudos de cultura em Filosofia - texto de apoio 3o. ano ETER




1. Introdução e etimologia

Muitas vezes ao falarmos do termo cultura nos deparamos com um grande problema da nossa linguagem: chamamos de algo cultura uma peça de teatro, vista no Municipal, e também não podemos falar que um indígena da Amazônia não tem cultura; ao contrário, ouvimos constantemente expressões do tipo “cultura indígena, cultura tupi, língua guarani, etc.”

O termo cultura pode, assim, possuir diversos significados, destacando-se:
-        cultura como Ausbildung, ou seja, formação de indivíduo: (die Bildung, em alemão, que vem do verbo bilden, formar); em sentido estrito, é formar, dar forma a algum conteúdo aprendido em instituição educativa.
-        cultura como Kultur conjunto de criações  ou "cultivamento" da natureza por um determinado povo ( die Kultur, em alemão, do latim colere: colher, cultivar). São todas aquelas manifestações culturais aprendidas em ambientes não formais, como família, clube, grupo de amigos na rua ou colégio e que se aprende de forma “natural”.

2.   Breve histórico da Cultura

É demasiado ousado falarmos em "história"  da cultura aqui, dado que essa só passou a ser objeto de estudo de modo independente  da antropologia filosófica  a partir  do século XVIII com os iluministas. Assim, antes de tudo, observa-se a noção/conceito  de homem na história do pensamento para se estabelecer  ou identificar possíveis relações culturais.

·       filosofia antiga (séc. VI a.C. ao II d.C.)
A cultura corresponde basicamente à paide/ia grega e/ou a humanitas latina. Era a educação do homem como tal, ou seja, educação devida às "boas artes " peculiares do homem, que o distinguem de todos os outros animais. Para os gregos, significava a busca e a realização do que o homem faz de si mesmo em estreita conexão com a Filosofia e com a sociedade em geral. O homem só se realiza através do conhecimento de si mesmo e do mundo na  p/olij, cidade-estado grega. Como exemplo, podemos observar estes aspectos da cultura grega nas obras de Platão, em especial em A República e na Política, de Aristóteles.
Neste caso, a natureza humana não é algo empiricamente  comprovado, mas corresponde ao termo da formação do homem, ao seu fim último e à sua felicidade plena que corresponde à noção de idéia em Platão e de forma em Aristóteles. Assim, a idéia de cultura na antigüidade clássica era:
-        Aristocrática: era algo destinado aos nobres e ao mesmo tempo tornava quem a possuía também um nobre, causando uma revolução, onde a nobreza  era considerada algo hereditário e não adquirido por mérito (esta tradição meritocrática inicia-se com Platão);
-        Naturalista: era considerada como um aperfeiçoamento da natureza;
-        Contemplativa: havia a necessidade de uma vida de contemplação para se adquirir a realização plena da natureza humana (o fim da cultura).

·       filosofia medieval (séc. II-III ao XIV)
Neste período, conserva-se o conceito de cultura herdado da antigüidade, permanecendo ainda como algo aristocrático e contemplativo, todavia a preparação do homem visava a vida eterna. Assim, a filosofia e a cultura em geral assumiu um papel propedêutico fundamental como preparação para a teologia (Philosophia ancillae theologiae).

·       filosofia  moderna (séc. XV ao XVIII-XIX)
1.     Renascimento: restituição do caráter naturalista da cultura perdido no período medieval em função da posição propedêutica da cultura.
2.     Iluminismo: a cultura passou a ser entendida não só quanto à  sua função antropológica, mas também quanto ao seu papel etnológico. Assim, rompe-se  com o caráter aristocrático da cultura que passa a dever ser acessível a todos. Todavia,  foi também a partir  do Iluminismo que a cultura passou a ser  identificada com o "enciclopedismo".

·       filosofia contemporânea (Séc. XIX-XX até os nossos dias)
É caracterizado pela crítica ao "enciclopedismo"  e ao positivismo que privilegiava as ciências exatas. Passa a cultura a ser compreendida como o conjunto dos modos de vida criados, adquiridos e transmitidos de uma geração para a outra, entre os membro de uma determinada sociedade.  Segundo diz Spengler, é a civilização o aperfeiçoamento e o fim de uma cultura.

3.  Algumas posturas contemporâneas

-        Idealistas: Cassirer, Croce, Gentile, Husserl: vêm na cultura de um povo as várias etapas de consciência do Absoluto.
-        Vitalistas: Dilthey e Spengler: consideram a cultura como a expressão máxima da vida;
-        Marxistas: Marx e seus seguidores: interpretam a cultura como reflexo das condições  econômicas de uma sociedade;
-        Estruturalistas: Lévi-Strauss e Foucault: a cultura é fruto do pensamento inconsciente.

Observação importante:

Elementos constitutivos da cultura:
-        a língua: sustenta a pilastra simbólica;
-        os costumes: sustentam a pilastra ética;
-        as técnicas: sustentam a pilastra tecnológica.

4 .  Cultura e natureza

Noção de natureza: o conceito de natureza não possui uma definição unilateral, ou seja, não possui sentido unívoco. Ao contrário, natureza é um conceito análogo que possui uma gama de definições.
Quanto à etimologia, a palavra NATUREZA vem do verbo em latim nascor, que significa “nascer” – assim, natureza seria tudo aquilo que brota livremente no mundo, sem interferência do homem. Pode-se mesmo opor Cultura (o que o homem produz) à natureza (aquilo que o homem já encontra pronto no mundo).
Muito interessante é a origem da palavra na Grécia, natureza em grego é fu/sij (phýsis) e também vem do verbo nascer, mas em grego, que se diz fu/w (phýo). Assim, na Filologia, Física e Natureza são sinônimos. Vamos ainda além dessa reflexão:
 Podemos destacar:
1.     natureza como princípio do movimento ou substância
É a noção mais antiga sobre o termo "natureza" e condicionou o seu uso, como por exemplo, "deve-se seguir a natureza". Assim, natureza é o princípio de vida que cuida bem dos seres em que se manifesta. Aristóteles cita na Física , II, 1, 192b20: A natureza é o princípio e a causa do movimento e do repouso da coisa  à qual ele inere primariamente e por si, e não por acidente. Deste modo, pode-se compreender natureza como causa tanto eficiente como também final.
2.     natureza como ordem e necessidade
É assim entendida desde o período moderno, em especial, pelos filósofos-cientistas. Nilton afirmou que a natureza é bastante concordante e consonante consigo mesma. (In. Optiks, 1704, III, 1, q. 31).
3.     Natureza como manifestação do espírito
Natureza passa a ser considerada como a exteriorização da consciência-de-si (Selbstbewusstsein) nos seus mais diversos níveis. A natureza é a idéia na forma de ser outro. (Hegel)

5.   Relações entre cultura e natureza

A questão a ser travada aqui é complexa, mas simples de se formular: a cultura se opõe diretamente à natureza? Se sim, o que devemos valorizar e seguir: a cultura ou a natureza? Se não, como se relacionam cultura e natureza?

·       "A cultura é aquilo que se acrescenta à natureza. Desta forma, cultura é o aspecto subjetivo da humanidade, já a natureza corresponde ao seu aspecto objetivo porque é comum a todos."
·       " O objetivo da cultura está no fato de ser algo propriamente humano, pode-se até afirmar que o homem é naturalmente cultura.[ii]"

·       "Deve-se se distinguir com rigor aquilo que se me apresenta como realidade (natureza) e o que já é solução/interpretação (cultura). A cultura surge como uma interpretação necessária da natureza.[iii]"

·       "O homem só será pleno quando retornar à natureza.[iv] "

6   Cultura e antropologia

·       "A liberdade, enquanto espontaneidade pessoal sempre ativa do centro espiritual do homem - do homem no interior do homem - é a condição primeira  e mais fundamental de qualquer possibilidade de cultura e esclarecimento humanos."
·       "A terrível  massificação da vida (...) é esta uma razão essencial por que a cultura é tão difícil  hoje e por que ao mesmo tempo ela se torna absolutamente necessária como um meio poderoso a ser usado pelas novas elites genuinamente cultas (...). "
·       "Aquele que quer cultivar a si mesmo ou ao outro, na medida em que for possível fazê-lo, precisa possuir uma compreensão clara de três espécies  de problemas. Primeiro: qual é, em geral, a "essência" da cultura? Segundo: Como se produz a cultura? E terceiro: que espécies e formas do saber e do conhecimento condicionam e determinam o homem um ser "culto"?"
·       "A cultura é, portanto, uma categoria do ser, não do saber e da experiência. (...) Um tal "universo", resumindo-se e resumido.[v]"


·       "Quando o homem se põe a estudar a cultura, não faz senão estudar a si mesmo."
·       "No homem culto, ao contrário, os conhecimentos transformam-se em razão de vida, em dimensão do seu ser. O erudito geralmente é um homem árido, enquanto que o homem culto se mostra aberto a todas as palpitações da vida.[vi]"

7 Cultura  e sociedade

Leis de Erich Fromm:

·       As idéias podem torna-se forças poderosas, mas só na medida em que sejam respostas a necessidades preeminentes em um dado caráter social.
·       A função subjetiva do caráter para a pessoa normal é levá-la  a agir de acordo com o que é necessário para ela sob um ponto  de vista prático e também proporcionar-lhe satisfação psicológica através de sua atividade.
·       O caráter social interioriza necessidades  externas e destarte aproveita a energia humana para as tarefas de um dado sistema econômico e social.
·       A família pode ser assim considerada como o agente psicológico da sociedade.
·       Apesar do desenvolvimento do caráter se talhado pelas condições  básicas da vida e apesar de não haver uma natureza humana biologicamente fixada, esta natureza  humana tem um dinamismo próprio que constitui um fator atuante na evolução da processo social[vii].


Roteiro de estudos

1.     Defina com suas palavras o termo cultura.
2.     Quais as principais concepções de cultura na história do pensamento ocidental?
3.     A língua, os costumes e as técnicas são suficientes para se ter uma cultura em sentido pleno? Justifique.
4.     Natureza. O que podemos compreender por este termo?
5.     Estabeleça relações formais entre cultura e natureza.
6.     Você concorda com a tese de retorno à natureza de Rousseau? Por quê?
7.     Relacione a visão filosófica de Scheler com a de Julián Marías  quanto à cultura e à antropologia.
8.     Segundo Fromm, como você observa a postura do autor nas relações cultura e sociedade?


Referência bibliográfica:
ABBAGNANNO, N.  Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CASSIRER, E. Antropologia Filosófica. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
REALE, M. Paradigmas da cultura contemporânea. São Paulo: Saraiva, 1996.
______. Introdução à Filosofia. São Paulo: Saraiva, 1994
MARÍAS, J. Introdução à Filosofia. São Paulo: Duas Cidades, s/d.
ROUSSEAU, J. J. Do contrato social. São Paulo: Martins Claret, 2001.
FROMM, E. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1970
SCHELER, M. Visão filosófica do mundo. São Paulo: Perspectiva, 1986
NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.







[ii] CASSIRER, E. Antropologia Filosófica: ensaios sobre o homem. 2 ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
[iii] MARIÁS, J. Introdução à filosofia. São Paulo: Duas Cidades, s/d.
[iv] ROUSSEAU, J.J. Do contrato social. São Paulo: Martins Claret, 2001
[v] SCHELER, M. Visão Filosófica do mundo. São Paulo: Perspectiva, 1986
[vi] MARIÁS, J. Introdução à filosofia. São Paulo: Duas Cidades, s/d.
[vii] FROMM, E. O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar, 1970

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