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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Introdução à antropologia - apoio para 3o. ano ETER


Introdução  à Antropologia [1]

1)    Etimologia
)/Anqrwpoj = homem + cultivare = cultivar

2)    Outros nomes da disciplina: antropologia social; Etnologia; Etnografia.
Observação: ing.: Cultural Anthropology ou Social Anthropology; fr.: Ethnologie, anthropologie culturelle; Al.: Völkerkunde, Ethnologie.

3)    Introdução geral à disciplina e busca por uma definição.

A antropologia tal qual a concebemos hoje tem sua origem no EUA e assumiu o papel de disciplina de referência para as mais diversas áreas, tais como a arqueologia, lingüística, história, sociologia, filosofia, etc.
Seu objeto de estudo identifica-se com as diversas culturas, independentemente da ordem cronológica, geográfica e do grau de complexidade de cada manifestação cultural.  Sua origem não se enquadra numa simples ruptura de um saber filosófico-dedutivo sobre o homem, existente desde os gregos – na sua forma sistemática – e outros povos ainda mais antigos – no seu aspecto de narrativa (mu=qoj) através da qual as tradições culturais de um determinado povo são transmitidas oralmente como forma de identidade cultural e social.  Na corrente da nova sociologia de Comte a partir do século XIX, de orientação radicalmente positivista, a antropologia cultural renuncia desde sua origem quaisquer concepções metafísicas sobre o homem, descartando sua causa última como objeto de estudo, buscando, por sua vez, uma descrição “positiva” de como o ser humano produz sua vivência e a manifesta.
Por um outro lado, a antropologia cultural nasce como resposta a uma Filosofia da história, tal como a hegeliana e outras, que parecem ter fracassado ao estabelecer um linha evolutiva para toda a humanidade. O problema teórico-científico da filosofia da história, sobretudo aquela praticada no séc. XIX, é estabelecer como verdade absoluta uma única visão de mundo européia ou mesmo europeizante[2], que coloca o padrão de comportamento europeu como paradigma de toda e qualquer sociedade, sem ao menos questionar a validade desse conjunto de valores que também são per si culturais.
Do ponto de vista de uma lógica epistemológica podemos dizer que a filosofia da história erra o alvo por uma simples petitio principii, pois ao tentar estabelecer uma linha evolutiva para toda a humanidade os filósofos da história esqueceram de se perguntar sobre quais aspectos estruturais na sua própria cultura não seriam relativos a uma ordem espaço-temporal. Outra pergunta latente nessas filosofias da história[3] é uma pressuposição de que vivemos no melhor dos mundos possíveis[4], e que dentro desse melhor, o meu próprio mundo limitado é considerado melhor que outros possíveis, como os aborígenes na Austrália, por exemplo. Como mero exemplo, citamos Hegel identifica o Estado prussiano como o máximo da racionalidade na política e isso foi seguido pela direita hegeliana, que identificou também a cultura européia como uma síntese da dialética histórico-cultural. Vejamos abaixo de modo esquemático essa concepção filosófica de mundo (Philosophische Weltanschauung):

Tese
Antítese
Síntese
África: surge a humanidade
Ásia: nasce a civilização (incluindo Egito antigo)
Europa: conquista da civilização e da liberdade civil, incluindo o melhor aspecto da “África” e o melhor da “Ásia”.
Sem Estado ou mera organização prática, apenas sociedades tribais; relações de troca de mercadorias.
Estado forte, com acentuada diferença do status social e toda uma máquina administrativa para o bem do povo – em oposição ao bem individual ou das minorias.
Estado forte – sobretudo após a criação do Estado moderno e fim do Feudalismo; delimitação das fronteiras, burocracia administrativa.
Liberdade absoluta, estado de natureza de Rousseau. O sonho idílico que o homem vive em harmonia com a natureza.
Ausência de liberdade, pois essa é entregue ao governante para garantir sobrevivência do grupo. Geralmente, o governante pode ser identificado com a divindade.
Liberdade partilhada, abdico da liberdade natural para garantir uma liberdade civil. Minorias e indivíduo tem direitos garantidos pela Lei.

Na nossa perspectiva, a teoria hegeliana tem valor histórico incalculável, pois vê o mundo social como um processo orgânico e evolutivo, que pode ser sempre aperfeiçoado em caminho de maiores conquistas – é uma perspectiva filosófica exclusivamente. Todavia, ela per se (e nenhuma outra teoria) não pode conceder o direito a um povo de “civilizar”[5] um outro. Isso se dá por uma simples crítica da teoria: como podemos saber que é melhor para outros povos o nosso modelo de comportamento e organização social sem ao menos lhes perguntar se o desejam, ou ainda, sem se questionar que se um indivíduo dito primitivo, um indígena da Amazônia por exemplo, se considera feliz e seu mundo lhe dá os significados que ele necessita para prosseguir sua saga. Uma analogia a ser feita seria o pai de um jovem estudante que decide para ele qual profissão deve seguir. Por mais que o pai esteja certo das inúmeras vantagens da profissão por ele escolhida para o filho, deve se perguntar se o filho tem as aptidões necessárias para tal empresa, como condições acadêmicas ou habilidades manuais e ainda, se isso traria significado à sua existência.
Se fôssemos estabelecer, então, uma distinção entre uma etnologia e uma filosofia da história diríamos que a etnologia abandona o aspecto universalizante daquela e abraça a multiplicidade do factível como seu objeto de estudo.
Após estas reflexões, podemos construir uma definição para a Antropologia Cultural.

Disciplina
Característica geral ou objeto quid
Diferença específica ou objeto quo
Filosofia
É a ciência
que estuda as causas últimas de todas as coisas.
Filosofia da História
É a ciência
que estuda as causas últimas das ações humanas na sua generalidade.
Antropologia filosófica
É a ciência
que estuda as causas últimas do homem enquanto homem.
Antropologia cultural
É a ciência
que estuda as causas ônticas das ações humanas na sua diversidade.
Assim, podemos dizer que a antropologia cultural é propedêutica indispensável para uma antropologia filosófica, pois considera a diversidade e o múltiplo, aspecto ôntico da realidade e fornece esses dados para o filósofo (re-)pensar o homem, a história e o todo.


[1] Referência bibliográfica:
STRAUSS, Claude-Levi. Antropologia estrutural. 2a. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970.
[2] Trata-se do chamado etnocentrismo, que iremos estudar mais adiante.
[3] Cf. Hegel. Filosofia da história.
[4] Esse teoria racionalista foi desenvolvida por Leibniz para explicar as relações substanciais entre as mônadas e junto com a teoria da harmonia pré-estabelicida que não permite o caos no mundo, é o fundamento da monadologia leibneziana. De acordo com os pressupostos do filósofo alemão, tal princípio é válido, pois engloba a realidade ontológica, supondo princípios metafísicos. Ao se transpor isso para o aspecto ôntico da realidade ou mundo factível, essa teoria se demonstra inválida, pois no universo do factível, os pressupostos são também ônticos (e não ontológicos). Assim, o objeto dos estudos culturais é relativo à realidade transitória e mutável e não à sua estrutura meta-ôntica.
[5] Interessante notar que as antigas colônias francesas na África adotaram claramente esse aspecto no seu sistema educacional. Ao terminar os estudos fundamental e médio, o discente receberia um documento atestando sua aprovação no exame de “langue et civilization françaises.” Até recentemente, ao concluirmos os estudo oficiais de língua francesa no Brasil, na Alliance Française, também recebíamos esse vergonhoso título de “civilizados”.

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