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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Brevíssimo histórico da Filosofia Moderna - Texto de apoio para 2o. ano


FAETEC – ETER
FILOSOFIA / EM / 2O. ANO
Prof. Michell de Mello

1. Noção de modernidade                  

            Estamos nos tempos modernos!!! De fato, mas faz-se mais de 400 anos....
            O termo "modernidade" é, talvez, uma dos mais caros ao homem contemporâneo. Nós nos consideramos modernos porque usamos esta ou aquela roupa, porque vamos a este lugar e não àquele outro, etc. Entretanto, nós não percebemos que estamos totalmente ligados a uma tradição, que por ser moderna, não tem hoje nada de movimento de vanguarda, ao contrário justamente, pois modernidade (do latim modus: medida de superfície e, assim, maneira de se encaminhar, conduta, comportamento) implica  rigidez a um modo preestabelecido. Implica uniformidade e sistematização. É neste sentido rígido do modus  que chamamos o período da Filosofia entre os séculos XV e XIX  de período moderno.
            Em relação a esta fase da Filosofia, podemos considerar  duas noções fundamentais que dão identidade a este período: a idéia de progresso, que faz com que o novo seja considerado melhor que o mais antigo e a valorização do indivíduo ou da subjetividade como lugar privilegiado da certeza e da verdade.

2. Fatores históricos que influenciaram a noção de modernidade

            A. O humanismo renascentista: é um período com identidade filosófica própria porque não se confunde  nem com o período clássico e medieval da Filosofia e nem com o pensamento moderno em si, mas teve influência determinante no desenvolvimento da filosofia moderna.
            "O homem é a medida de todas as coisas",  foi o lema assumido de Protágoras pelos humanistas, rompendo diretamente com o período medieval e com sua cosmovisão quase sempre teocêntrica. Como motivação, buscava-se retornar ao métodos greco-romanos pagãos, buscando neles e no seu desenvolver estético  um novo ideal  de homem, com uma forte valorização do eu  de cada indivíduo. Nas artes, valorizava-se  o corpo humano como dotado de beleza própria que se expressa na sua proporção  e em suas linhas harmoniosas, pois o homem é um deus não em sentido absoluto, porque é um homem, mas é um deus humano. (Nicolau de Cusa)

            B. Reforma protestante: a reforma religiosa e sócio-política iniciada por Lutero é paradoxal, pois este ao negar a liberdade do homem frente à vontade absoluta de Deus ("agir contra a própria consciência não é seguro para nós, nem depende de nós." Lutero) é um retrocesso quanto às idéias renascentistas; todavia, ao afirmar que só a fé individual  pode salvar, impulsionou as crença da subjetividade, típica do humanismo.

            C. A revolução científica: inicia-se com a tese de Copérnico que defendia matematicamente o heliocentrismo. Contudo, tal tese ia contra ao geocentrismo que havia já a 2000 anos  e refletia a própria cosmovisão medieval e antiga do mundo. A ciência moderna surge quando se torna mais importante salvar os fenômenos  e quando a observação, a experimentação  e a verificação de hipóteses  tornam-se critérios decisivos para o conhecimento, suplantando, assim, o método metafísico.
            Novidades decorrentes da Revolução Científica:
·       quanto à cosmologia: validade do modelo heliocêntrico;
·       quanto à ciência: observação e o método experimental;
·       mecanicismo: o universo e tudo que há nele funciona como uma máquina

"O universo é um livro escrito em linguagem geométrica; para compreendê-la é necessário aprender a ler esta linguagem." Galileu Galilei
Roteiro de estudos:
1)     O que se entende por "moderno"?
2)     O que significa "humanismo"?
3)     Comente o paradoxo da Reforma Protestante dentro do contexto da idéia de modernidade.
4)     Qual a importância da Revolução Científica no contexto filosófico?


3. Racionalismo

            René Descartes (1596-1650)
            "A faculdade de julgar bem e distinguir o verdadeiro do falso, que é justamente aquilo que se chama de bom senso ou razão, é, naturalmente, igual em todos os homens."
Descartes

            Descartes pode ser considerado  o maior expoente do racionalismo da filosofia moderna. Em sua filosofia encontramos as dúvidas e inquietações  de sua época, mas também elementos da tradição medieval.
            A intuição básica de Descartes foi dar segurança à Filosofia, tendo como modelo a matemática. A Filosofia deveria conter em si a clareza e a evidência  presentes nas ciências chamadas exatas. Em sua obra O discurso do método, Descartes  expõe o caminho (isto é, o seu método), que se deve percorrer na Filosofia para que ela obtenha a mesma segurança que a matemática. Ei-lo resumidamente:
1.     dúvida metódica: não devo admitir nada  em meu intelecto que não seja claro e distinto;
2.     análise: devo dividir o objeto do conhecimento em todas as suas partes;
3.     síntese: devo reunir estas partes num todo;
4.     revisão: devo enumerar toda a operação feita e percorrê-la novamente.

A partir destas regras do método, Descartes  com sua dúvida metódica  pode chegar a uma primeira verdade fundante: "Ora, se duvido, penso, e se penso, existo." (Cogito, ergo sum). O Cogito (eu penso) será a primeira verdade irrefutável do cartesianismo, base para todas as outras verdades futuras. Desta primeira verdade, ele chega a duas outras verdades fundantes: Deus e a matéria.
  1. A idéia de Deus é a idéia de um ser perfeito. Ora, o ser perfeito inclui todas as perfeições. Considerando que a existência é uma perfeição, deve-se concluir que Deus existe[1].
  2. A idéia de matéria corresponde à idéia de extensão que existe em minha mente. Contudo, a matéria está por natureza fora do espírito humano como atestam os sentidos. Logo, a matéria existe fora do intelecto.

Assim, observamos  que Descartes reduz a realidade  em três níveis ontológicos:
-        res cogitans (coisa pensante);
-        res extensa (coisa extensa);
-        Deus.

Tem-se, deste modo, uma concepção dualista da realidade que opõe a res cogitans  e res extensa. Esta cosmovisão marcou profundamente a humanidade até os dias de hoje, onde a separação entre espiritual e material é quase um fato do senso comum. Outra conseqüência importante da filosofia cartesiana é colocar o Cogito (eu penso)  como fundamentação radical de tudo. O meu eu precede tudo o que existe, e mais ainda, sou eu quem é capaz de dar fundamentação a todas as demais realidades. É a coroação do subjetivismo.
O pensamento de Descartes marca não só a Filosofia, mas as mais distintas áreas de saber  com um dualismo e subjetivismo crescentes.


4. Empirismo
O empirismo surge na Inglaterra em oposição ao racionalismo. De um modo geral, os empiristas defendem que a verdadeira fonte do conhecimento é a experiência sensível, sobretudo nos campos da teoria do conhecimento e da filosofia da ciência.

David Hume (1711-1776)
Principais obras:
-        Tratado sobre a natureza humana (1739);
-        Investigações sobre o entendimento humano (1748).

Segundo Hume, como para os outros empiristas, as idéias têm sua origem no sensível que é a nossa fonte de conhecimento. As idéias originais são  sempre idéias  de particulares, somente quando associamos a termos/palavras  gerais  é que podemos ter noções  universais ou conceitos. Por ordem de proximidade com o objeto de conhecimento, então, as idéias simples, ou sejam, idéias dos particulares são mais confiáveis de que as idéias compostas que obtemos por justaposição das idéias simples.
Hume também critica a noção clássica de causalidade, pois para ele tudo o que observamos  são fenômenos (acontecimentos)  que se sucedem sem uma lei universal necessária. É apenas uma sucessão de fatos que nós associamos, e que resulta de uma regularidade da repetição pelo costume.


5. Criticismo

Chamamos de Criticismo a corrente filosófica inaugurada por Immanuel Kant e que se localiza dentro do Iluminismo (movimento espiritual típico do século XVIII, caracterizado pela confiança ilimitada na razão, considerada como faculdade capaz de dissipar as trevas da ignorância e conduzir o homem à felicidade).

Immanuel Kant (1724-1804)
Kant teve formação filosófica profundamente racionalista, contudo, ao entrar em contato com a obra de David Hume, disse que ficou em crise, tendo  despertado do "sonho dogmático". Assim, Kant tentará uma síntese entre empirismo e racionalismo.
Para os racionalistas, o conhecimento parte dos juízos analíticos a priori, isto é, aqueles em que o predicado está contido no sujeito (ex. todo triângulo tem três lados). Já  para os empiristas, o conhecimento parte dos juízos sintéticos a posteriori, ou seja, dependem da experiência (ex. a água ferve a 100 graus centígrados). Contudo, estes últimos não são ou não podem ser considerados universais e necessários, e os primeiros não produzem conhecimento novo. Kant sintetiza as duas correntes e estabelece que o conhecimento verdadeiro deve ser obtido através dos juízos sintéticos a priori. Veja:

Racionalistas

 Juízos analíticos a priori

Lei universal e necessária, mas não admite o elemento novo que é dado pela experiência sensível.

Empiristas

Juízos sintéticos a posteriori
Lei particular que possui o elemento novo baseado na experiência sensível, mas não possui caráter de lei universal e necessária.

Kant

Juízos sintéticos a priori
Possui o novo dado pela experiência sensível (sintético) e o caráter universal e necessário para se ter o estatuto de ciência (a priori).

Como funcionam os juízos sintéticos a priori?
O novo ou o sintético nos é dado pela "matéria", que Kant chama de númeno  ou coisa-em-si. Contudo, jamais posso conhecer  as coisas como são em si mesmas, pois tudo o que penso  é pensado no espaço e no tempo que são, por sua vez, características  inatas do sujeito cognoscente (ou seja, que conhece). Estas formas puras da sensibilidade, espaço e tempo, dão o caráter de lei universal, de a priori, ao nosso conhecimento, e somente podemos ter conhecimento verdadeiro do fenômeno (a coisa-para-mim e diferente da coisa-para-si ou númeno) das coisa que se constituem das nossas formas do espaço e tempo a priori, mais o dado do  novo do númeno. Se faltar um destes elementos, o nosso conhecimento não é verdadeiro. Observemos:












  Númeno
(coisa-em-si)
                   +

Sentidos
Intelecto
Razão
Formas a priori da sensibilidade:
-        Espaço
-        Tempo
12 categorias:
-        substância
-        unidade
-        causalidade
-        etc.
Idéias da razão:
-        Alma
-        Mundo
-        Deus

Matemática
Física
Metafísica



                        Fenômeno                                                 Não é um conhecimento
                                 =                                                              científico, válido
          conhecimento válido (científico)

Assim, deve-se concluir que:
·       somente as ciências matemáticas e físicas são ciências de fato;
·       nunca atingimos a razão como ela é;
·       a ciência está fundada no sujeito e não na realidade objetiva;
·       as categorias pertencem ao sujeito e não às coisas.

Apêndice: a noção de ética em Kant

Imperativo categórico: “Age de tal modo que a tua lei possa ser o mais universal possível.”
Ø  diferente do imperativo hipotético: "se queres ser feliz, faça isto e não aquilo."
Assim, Kant tenta responder  as quatro questões que considera básicas para a Filosofia:
1.     O que posso saber?
2.     O que devo fazer?
3.     O que me é permitido esperar?
4.     O que é o homem?

Roteiro para estudos :
1.     O se entende por "moderno"?
2.     O que significa "humanismo"?
3.     Comente o paradoxo da Reforma Protestante dentro da idéia de modernidade.
4.     Qual a importância da revolução científica dentro no contexto filosófico?
5.     Qual o objetivo da filosofia de Descartes?
6.     Comente sobre o método de Descartes. Você pode citar exemplos de onde o encontramos hoje?
7.     Reformulo o argumento do Cogito. Critique-o ou defenda-o .
8.     "Você é um solipsista!!" O que significa esta frase dentro do contexto filosófico?
9.     Por que Descartes precisa recorrer a uma prova da existência de Deus? Você seria capaz de encontrar uma fraqueza no argumento ontológico cartesiano, ao contrário,  o defenderia?
10.   Em sentido usamos o termo "empirismo"?
11.   Discuta o lema do empirismo retirado de Aristóteles: "Nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos."
12.   Explicita a crítica de Hume à causalidade? Você consegue ver alguma implicação desta crítica no mundo contemporâneo?
13.   Compare e contraste as concepções filosóficas de conhecimento  do empirismo e do racionalismo.
14.   Qual o sentido da crítica kantiana?
15.   Como Kant pretende superar a dicotomia entre empirismo e racionalismo?
16.   Que tipo de caracterização dá Kant ao objeto de conhecimento?







[1] Este é o famoso argumento ontológico de Descartes.

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