Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

domingo, 3 de março de 2013

O professor


Professor de Filosofia, primeira aula do ano de mais um ano de seus mais de 30 anos de sala de aula, falava a seus alunos sobre as questões básicas e fundamentais do ser humano num curso introdutório da disciplina - "quem sou?, de onde vim?, para onde vou?" e tenta fazer um discurso eloqüente. Um aluno, um tanto sagaz, faz uma pergunta pessoal - o pobre professor treme, pois coisas pessoais não lhe foram ensinadas na faculdade para se dizer aos alunos, porque não teria a resposta universal e necessária, porque iria se expor, porque ele tinha um doutorado e isso não era pessoal e não cabia ali entre "desconhecidos" e etc.: e você professor, quem é? Silêncio, ele olha e vê sorrisos, expectativas, emboscadas, esperanças, medos, celulares debaixo da mesa, conversa entre olhos, desinteresse e interesse, uma gama de emoções e sentimentos que lhe fogem; parece que não vai conseguir responder à pergunta de modo satisfatório. Silêncio ruidoso. Relaxe, pense em algo tranqüilo, lembrou do mar e das praias. O aluno insiste: fala professor, quem é você? Uma tsunami de idéias lhe passam e diz: sou um grão de areia que se sabe um grão de areia e está em constante incômodo por saber disso e ao mesmo tempo não quer só ser mais um grão de areia numa praia; uma poeira no universo que sabe que sua própria vida é um brevíssimo momento na História do universo e sabe disso; mas não se conforma. O professor se perguntava se isso era bom, ficou inseguro e quase pensando no discurso tradicional e válido de que a Filosofia deve ser algo universal, lhe cai outra pergunta de seus discentes: por que demorou tanto para responder? Sente-se ofendido, e aí ele olha para seus rostos e vê a metafísica presente no ser humano, todavia para essa resposta ele tinha um glichê que deveria ser suficiente: ou se fala como se pensa, ou se pensa como se fala. Silêncio de novo, mas agora não do professor que estava a um turbilhão de idéias, mas dos alunos. Celulares parados, um milagre!, conversas paralelas só por telepatia, olhos atentos, porém distantes. Respirou fundo, toca uma campainha desagradável que avisava que aquele momento era também finito. O professor toma sua caneta preta, uma meio tinteiro meio outra coisa e olha para o diário de classe para lançar o conteúdo: introdução geral à disciplina sem conteúdo delimitado; aula dialogada e finalmente conseguiram os alunos a me ensinar o que é uma introdução geral ao espírito do pensamento filosófico. Observação, continua a pintar sua "pauta": Filosofia é entrar no mundo da própria vida, perceber os objetos aos redor, admirar-se e não se contentar; observação 2: explicitar na próxima aula os conceitos históricos da disciplina do livro cap. 01. Fechou o diário, sorriu e num grau de estranha intimidade com seus neoconhecidos pergunta: alguém tem dúvidas? todos levantam as mãos.

Um comentário:

  1. Caro Michell,

    fico feliz em vê-lo publicando. Vou torcer para que mais textos surjam a fim de que sutilmente nos inspire e reviva o espírito filosófico.

    Grande abraço!
    Miguel Angelo.

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