Um sentimento
estranho de culpa e liberdade, medo e segurança, conforto e rigidez não saiam
da cabeça de Jacques. Fazia muito calor, havia mosquitos – daqueles que são
invisíveis e você com certeza sabe que eles estão lá -, barulho de animais
semisselvagens como vacas e ainda chamadas de interfone; e comentários em voz
alta por pessoas diferentes. Parecia tudo tumultuado: era o final de um retiro de
crisma. Um retiro de crisma era o que se chamava na época um período em que
adolescentes de 15 e 16 anos ficavam isolados em atividades religiosas que
seria a preparação final para o recebimento do Sacramento da Confirmação. Mais
ou menos, deveria ser um rito de passagem, marcando claramente uma entrada na
vida adulta diante de Deus e diante dos homens. Infelizmente Jacques achava que
era um conceito apenas social, importante para a família que sempre lhe lembrava: sem crisma você não pode se
casar. Não era algo real que modificava a vida de todos, apenas para alguns.
Talvez esses tivessem o sentido real do acontecimento. Todavia, tratava-se de
mais um daqueles ritos de passagem que existiam em algumas formas diversas de
sociedade, como os espartanos, por exemplo. Enfim, a igreja estava linda para
receber os neoconfirmadandos. Jacques era coroinha e tinha que correr para
arrumar, e isso ele queria muito, os vasos sagrados para a Missa, ia ser o tal
pontifical que tinha estudado com Mons. von Ulrich, rigorosíssimo em tudo, mas
somente consigo mesmo. A todos, um sorriso e um batina preta velha
impecavelmente limpa.
Hoje vai ter tudo,
de água benta em procissão com capa de asperge até – um momento de silêncio –
até o sacrifício do cordeiro que salva todos e se renova perpetuamente na missa
e os melhores coroinhas que salvam esse padre velho e caduco, disse sorrindo
Mons. von Ulrich. Mas, aqui estão os chocolates para 40 minutos depois da
comunhão, um gesto tão germânico como um sorriso e uma ordem, que nem é ordem
de fato. – O senhor bispo está aí e todos sabem os procedimentos. Corram! Seus
Kinderspriestheiter! Bradou enérgico o seu poderoso e dócil chefe.
Jacques ficou
encantado com a cerimônia e os cânticos, desejou ser coroinha em Roma, e
pensou: por que não ser padre? Levou essa ideia à frente. Fez os estudos e os votos,
foi para Roma, assistiu a tudo àquilo que sonhava, e dessa vez, estava lá na
cidade eterna como sacerdote – mas isso era menos que coroinha em Roma e sorriu
de sua ingenuidade. Acompanhou os escândalos divulgados pelos meios digitais e
sabia que tudo era perfeitamente possível. Sempre que um sentimento de angústia
lhe tomava conta diante dos fatos, lembra da máxima do bispo de Hipona: Ecclesia sancta et meretrix – Igreja
santa e prostituta.
Voltou para sua
cidade natal, pouco havia mudado e viu que apesar de suas peculiaridades na
comunidade para a qual havia sido designado pelo Bispo, algumas coisas
continuavam as mesmas: aos domingos, a igreja ficava cheia, em alguns horários
e quando não fazia muito calor, lotada, igual no Natal e na semana santa. Os
fiéis eram sempre os mesmos: alguns constantes e simples com uma vida
espiritual muito profunda, mas íntima. Conhecia um casal que ambos eram
divorciados nos antigos casamentos, oficialmente eles não poderiam ser líderes
em nada na paróquia, por estarem em “pecado”. Pensava muito nessas pessoas e se
perguntava como isso seria resolvido sem ferir a tradição, pois especialmente
esse casal era um exemplo de vida religiosa, era seu confessor e sabia disso,
mas eles não podiam participar de praticamente quase nada. Esses era admirados
por Jacques. Outros eram mais radicais do que o papa, pensava consigo e tinha a
intuição que a vida espiritual deles embora muito demonstrada nas procissões e
nas cruzes, parecia ser superficial. Havia as “beatas” que meio que mandavam na
paróquia e o melhor era manter um relacionamento muito político: ele podia até
ser rei, mas o parlamento paroquial era delas. As crianças, ah essas sim, o
encantavam – porque eram as mais sinceras, rezavam como falavam e falavam como
rezavam. Ele adorava estar nos grupos de catecismo e no de coroinhas, todos
mistos, com meninos e meninas. Nem todos os seus colegas de hábito concordavam
em ter coroinhas meninas, mas ele não ligava. Quando a crítica era muito dura,
ele dizia: alguém precisa viver no século XXI.
Jacques adorava
estudar e viajar, mas sempre tinha que conciliar os dois, pois nunca teve
autorização para um viagem que não fosse pastoral ou de estudos. Sempre teve
seus altos e baixos na vida, perguntava-se muitas vezes no que dizer no confessionário
às pessoas além do tradicional “ego te
absolvo in nomine Patris et Fillii et Spiritus Sancti”. Queria dizer, eu
entendo seu drama, não se martirize ou se culpe tanto assim, a ideia de castigo
divino é contraditória a um Deus que se diz amor. Nem sempre falava, muitas
vezes se frustrava. Às vezes duvidava se agia como se fosse o próprio Cristo na
terra, in persona Christi, como
aprendera nas aulas de Teologia.
Começou a sentir
medo de tudo e todos: dos colegas que o criticavam, ora conservador ora
liberal, dos grupos de coroinhas e catequese, pois qualquer demonstração de
afeto poderia se tratar de pedofilia. Aliás, numa reunião do clero ele disse
que essas coisas não podiam ficar escondidas trocando o sacerdote de um lugar
para outro, mas sim entregando-o ao poder público para que julgasse quanto à
lei dos homens, pois o crime era na esfera profana que profanava, repetiu
levantando levemente a voz, profanava o que restava de santo na sua
instituição. Tinho medo das beatas e das fofocas, medo do conselho fiscal
porque sempre achavam que ele gastava demais – nunca consigo, pois repassava
muita verba para a creche da paróquia, colocando sistemas modernos de
segurança, pagando muito bem aos professores, oferecendo a melhor alimentação
possível e etc. Mas se capacidade administrativa significasse descaso pastoral
com as crianças da creche, ele seria o melhor pior administrar que havia na
região. Um dia percebeu que estava com medo de que tudo aquilo em que
acreditava fosse uma não verdade. Resolveu se aconselhar com um amigo
sacerdote, pouco adiantou. Deveria rezar mais, foi-lhe dito, contudo era
justamente isso que se questionava. Ele havia perdido a paixão pelo que
acreditava e entregara sua vida.
Resolveu fazer
análise, escondido, é claro! Seria mal visto se fosse público, não podia ser
alguém conhecido ou da paróquia, talvez até um não católico fosse melhor para
uma visão de mundo distinta e imparcial, pensou. Deveria ser alguém experiente
e com quem conseguisse ter empatia. Ah, além disso, deveria arrumar dinheiro
que não viesse das doações dos fiéis e de seu salário mínimo de sacerdote, não
para custear um tratamento de psicanálise, sem contar que ele doava mais da
metade e todas as sobras para a creche. Resolveu dar aulas de teologia na
universidade da diocese; ele tinha um doutorado em teologia e já fora chamado,
mas recusara. Quem sabe agora, se pedisse, o bispo autorizasse? Conseguiu e no
ambiente acadêmico conheceu Carlos, professor de psicanálise, e em confidência,
quase que num sacramento da confissão herege, fala de sua vida, sem grandes
detalhes. Carlos, como professor, foi quase um sacerdote, o acolheu e na semana
seguinte entregou um número de telefone de um analista que morava numa cidade
vizinha, era ateu, e Carlos teve o trabalho de perguntar a ele caso lhe seria
confortável clinicar um padre. O psicanalista, de outra cidade e ateu,
humanamente sorriu e disse a Carlos: ele é humano, certo? Claro que me
interesso e posso clinicá-lo! Vejamos se vai “rolar” empatia.
Jacques ligou e marcou um horário na
segunda-feira, dia que o clero tinha folga. Foi para sua primeira sessão,
colocou trajes civis, uma calça estilo social azul marinho, os mesmos sapatos
pretos e um camisa listrada cinza que o deixava muito elegante. Pensou que
fosse chamar atenção das mulheres, porque num segundo de vaidade viu como
estava bonito e era bonito. Depois, no seu monólogo disse a si: que besteira, o
que chama atenção nas ruas é a batina, acho que até que pode ser um fetiche
para algumas mulheres, como os uniformes militares, lembrando da obra de Adorno
sobre o tema do fetiche. A postura dele o fazia quem ele era, e não a roupa. E
se auto-afirmou: uso batina mais porque me sinto bem e me lembro quem sou e por
um certa vaidade espiritual do que para qualquer outra coisa. Pensou que
deveria adquirir mais roupas civis, porque se continuasse a ir à terapia toda
semana, ia ser esquisito usar sempre a mesma roupa. Tocou a campainha do
consultório, estava nervoso, mas era o caminho que naquele momento ele havia
elegido.
O analista, cujo nome era Raul, abriu a porta com um
sorriso e disse-lhe para entrar. Estavam numa sala num casarão antigo. Sóbria,
mas de muito bom gosto. Uma estante de livros, muitos em francês, que Jacques
dominava e ficava lendo os títulos. O piso de madeira corrida muito escura e as
cortinas claras de bordado branco sobre os vidros enormes, como de uma varanda,
dava ao ambiente um clima de certa contradição: o claro e o escuro, o antigo e
o novo, o que se é e o que se quer. Havia um sofá, que deveria ser o famoso
divã e duas poltronas individuais bem confortáveis. Nenhuma mesa de consultório
médico e pensando e falando o que lhe vinha à mente, comentou em voz alta: isso
ia ser um excelente confessionário! No fim, perguntou ao analista: o senhor
poderia me ajudar, quero dizer, sendo eu um sacerdote católico? O analista lhe
devolveu a pergunta: poderia eu um analista ateu ajudar a um sacerdote
católico? Ambos riram e entenderam que sim. Jacques foi embora e sem saber o
porquê se sentiu aliviado como se tivesse confessado um pecado mortal, mas não
tinha pecado para falar ali, apenas seus medos. O analista quase não falou
nada, mas o escutou. A sessão terminou e ele se retirou sem falar algo além das
formalidades adultas de homens que encontram mundos novos diante de si. Até
semana que vem, disse um, o outro acenou que sim com a cabeça. No carro, um Gol
1000 de mais de 7 anos que ele se recusava a trocar para não gastar dinheiro
demais da paróquia, tomou seu moleskine que ganhou num natal de um paroquiano e
escreveu: confessionário, escutar mais, até o que não for importante na
confissão e falar o menos possível. Deixar que as pessoas falem por si e se
perdoem antes mesmo que Deus as perdoe por qualquer mera ofensa. Guardou uma
caneta comum, mas antes de guardar seu caderninho de anotações, pegou a caneta
de volta e pintou a frase: voltar à análise na próxima semana.
Por pseudomacario
Na próxima semana, teremos mais encontros sobre essa história fictícia
no blog.
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