Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O pároco




            Um sentimento estranho de culpa e liberdade, medo e segurança, conforto e rigidez não saiam da cabeça de Jacques. Fazia muito calor, havia mosquitos – daqueles que são invisíveis e você com certeza sabe que eles estão lá -, barulho de animais semisselvagens como vacas e ainda chamadas de interfone; e comentários em voz alta por pessoas diferentes. Parecia tudo tumultuado: era o final de um retiro de crisma. Um retiro de crisma era o que se chamava na época um período em que adolescentes de 15 e 16 anos ficavam isolados em atividades religiosas que seria a preparação final para o recebimento do Sacramento da Confirmação. Mais ou menos, deveria ser um rito de passagem, marcando claramente uma entrada na vida adulta diante de Deus e diante dos homens. Infelizmente Jacques achava que era um conceito apenas social, importante para a família que sempre  lhe lembrava: sem crisma você não pode se casar. Não era algo real que modificava a vida de todos, apenas para alguns. Talvez esses tivessem o sentido real do acontecimento. Todavia, tratava-se de mais um daqueles ritos de passagem que existiam em algumas formas diversas de sociedade, como os espartanos, por exemplo. Enfim, a igreja estava linda para receber os neoconfirmadandos. Jacques era coroinha e tinha que correr para arrumar, e isso ele queria muito, os vasos sagrados para a Missa, ia ser o tal pontifical que tinha estudado com Mons. von Ulrich, rigorosíssimo em tudo, mas somente consigo mesmo. A todos, um sorriso e um batina preta velha impecavelmente limpa. 
            Hoje vai ter tudo, de água benta em procissão com capa de asperge até – um momento de silêncio – até o sacrifício do cordeiro que salva todos e se renova perpetuamente na missa e os melhores coroinhas que salvam esse padre velho e caduco, disse sorrindo Mons. von Ulrich. Mas, aqui estão os chocolates para 40 minutos depois da comunhão, um gesto tão germânico como um sorriso e uma ordem, que nem é ordem de fato. – O senhor bispo está aí e todos sabem os procedimentos. Corram! Seus Kinderspriestheiter! Bradou enérgico o seu poderoso e dócil chefe.
            Jacques ficou encantado com a cerimônia e os cânticos, desejou ser coroinha em Roma, e pensou: por que não ser padre? Levou essa ideia à frente. Fez os estudos e os votos, foi para Roma, assistiu a tudo àquilo que sonhava, e dessa vez, estava lá na cidade eterna como sacerdote – mas isso era menos que coroinha em Roma e sorriu de sua ingenuidade. Acompanhou os escândalos divulgados pelos meios digitais e sabia que tudo era perfeitamente possível. Sempre que um sentimento de angústia lhe tomava conta diante dos fatos, lembra da máxima do bispo de Hipona: Ecclesia sancta et meretrix – Igreja santa e prostituta.
            Voltou para sua cidade natal, pouco havia mudado e viu que apesar de suas peculiaridades na comunidade para a qual havia sido designado pelo Bispo, algumas coisas continuavam as mesmas: aos domingos, a igreja ficava cheia, em alguns horários e quando não fazia muito calor, lotada, igual no Natal e na semana santa. Os fiéis eram sempre os mesmos: alguns constantes e simples com uma vida espiritual muito profunda, mas íntima. Conhecia um casal que ambos eram divorciados nos antigos casamentos, oficialmente eles não poderiam ser líderes em nada na paróquia, por estarem em “pecado”. Pensava muito nessas pessoas e se perguntava como isso seria resolvido sem ferir a tradição, pois especialmente esse casal era um exemplo de vida religiosa, era seu confessor e sabia disso, mas eles não podiam participar de praticamente quase nada. Esses era admirados por Jacques. Outros eram mais radicais do que o papa, pensava consigo e tinha a intuição que a vida espiritual deles embora muito demonstrada nas procissões e nas cruzes, parecia ser superficial. Havia as “beatas” que meio que mandavam na paróquia e o melhor era manter um relacionamento muito político: ele podia até ser rei, mas o parlamento paroquial era delas. As crianças, ah essas sim, o encantavam – porque eram as mais sinceras, rezavam como falavam e falavam como rezavam. Ele adorava estar nos grupos de catecismo e no de coroinhas, todos mistos, com meninos e meninas. Nem todos os seus colegas de hábito concordavam em ter coroinhas meninas, mas ele não ligava. Quando a crítica era muito dura, ele dizia: alguém precisa viver no século XXI.
            Jacques adorava estudar e viajar, mas sempre tinha que conciliar os dois, pois nunca teve autorização para um viagem que não fosse pastoral ou de estudos. Sempre teve seus altos e baixos na vida, perguntava-se muitas vezes no que dizer no confessionário às pessoas além do tradicional “ego te absolvo in nomine Patris et Fillii et Spiritus Sancti”. Queria dizer, eu entendo seu drama, não se martirize ou se culpe tanto assim, a ideia de castigo divino é contraditória a um Deus que se diz amor. Nem sempre falava, muitas vezes se frustrava. Às vezes duvidava se agia como se fosse o próprio Cristo na terra, in persona Christi, como aprendera nas aulas de Teologia.
            Começou a sentir medo de tudo e todos: dos colegas que o criticavam, ora conservador ora liberal, dos grupos de coroinhas e catequese, pois qualquer demonstração de afeto poderia se tratar de pedofilia. Aliás, numa reunião do clero ele disse que essas coisas não podiam ficar escondidas trocando o sacerdote de um lugar para outro, mas sim entregando-o ao poder público para que julgasse quanto à lei dos homens, pois o crime era na esfera profana que profanava, repetiu levantando levemente a voz, profanava o que restava de santo na sua instituição. Tinho medo das beatas e das fofocas, medo do conselho fiscal porque sempre achavam que ele gastava demais – nunca consigo, pois repassava muita verba para a creche da paróquia, colocando sistemas modernos de segurança, pagando muito bem aos professores, oferecendo a melhor alimentação possível e etc. Mas se capacidade administrativa significasse descaso pastoral com as crianças da creche, ele seria o melhor pior administrar que havia na região. Um dia percebeu que estava com medo de que tudo aquilo em que acreditava fosse uma não verdade. Resolveu se aconselhar com um amigo sacerdote, pouco adiantou. Deveria rezar mais, foi-lhe dito, contudo era justamente isso que se questionava. Ele havia perdido a paixão pelo que acreditava e entregara sua vida.
            Resolveu fazer análise, escondido, é claro! Seria mal visto se fosse público, não podia ser alguém conhecido ou da paróquia, talvez até um não católico fosse melhor para uma visão de mundo distinta e imparcial, pensou. Deveria ser alguém experiente e com quem conseguisse ter empatia. Ah, além disso, deveria arrumar dinheiro que não viesse das doações dos fiéis e de seu salário mínimo de sacerdote, não para custear um tratamento de psicanálise, sem contar que ele doava mais da metade e todas as sobras para a creche. Resolveu dar aulas de teologia na universidade da diocese; ele tinha um doutorado em teologia e já fora chamado, mas recusara. Quem sabe agora, se pedisse, o bispo autorizasse? Conseguiu e no ambiente acadêmico conheceu Carlos, professor de psicanálise, e em confidência, quase que num sacramento da confissão herege, fala de sua vida, sem grandes detalhes. Carlos, como professor, foi quase um sacerdote, o acolheu e na semana seguinte entregou um número de telefone de um analista que morava numa cidade vizinha, era ateu, e Carlos teve o trabalho de perguntar a ele caso lhe seria confortável clinicar um padre. O psicanalista, de outra cidade e ateu, humanamente sorriu e disse a Carlos: ele é humano, certo? Claro que me interesso e posso clinicá-lo! Vejamos se vai “rolar” empatia.
Jacques ligou e marcou um horário na segunda-feira, dia que o clero tinha folga. Foi para sua primeira sessão, colocou trajes civis, uma calça estilo social azul marinho, os mesmos sapatos pretos e um camisa listrada cinza que o deixava muito elegante. Pensou que fosse chamar atenção das mulheres, porque num segundo de vaidade viu como estava bonito e era bonito. Depois, no seu monólogo disse a si: que besteira, o que chama atenção nas ruas é a batina, acho que até que pode ser um fetiche para algumas mulheres, como os uniformes militares, lembrando da obra de Adorno sobre o tema do fetiche. A postura dele o fazia quem ele era, e não a roupa. E se auto-afirmou: uso batina mais porque me sinto bem e me lembro quem sou e por um certa vaidade espiritual do que para qualquer outra coisa. Pensou que deveria adquirir mais roupas civis, porque se continuasse a ir à terapia toda semana, ia ser esquisito usar sempre a mesma roupa. Tocou a campainha do consultório, estava nervoso, mas era o caminho que naquele momento ele havia elegido.
            O analista, cujo nome era Raul, abriu a porta com um sorriso e disse-lhe para entrar. Estavam numa sala num casarão antigo. Sóbria, mas de muito bom gosto. Uma estante de livros, muitos em francês, que Jacques dominava e ficava lendo os títulos. O piso de madeira corrida muito escura e as cortinas claras de bordado branco sobre os vidros enormes, como de uma varanda, dava ao ambiente um clima de certa contradição: o claro e o escuro, o antigo e o novo, o que se é e o que se quer. Havia um sofá, que deveria ser o famoso divã e duas poltronas individuais bem confortáveis. Nenhuma mesa de consultório médico e pensando e falando o que lhe vinha à mente, comentou em voz alta: isso ia ser um excelente confessionário! No fim, perguntou ao analista: o senhor poderia me ajudar, quero dizer, sendo eu um sacerdote católico? O analista lhe devolveu a pergunta: poderia eu um analista ateu ajudar a um sacerdote católico? Ambos riram e entenderam que sim. Jacques foi embora e sem saber o porquê se sentiu aliviado como se tivesse confessado um pecado mortal, mas não tinha pecado para falar ali, apenas seus medos. O analista quase não falou nada, mas o escutou. A sessão terminou e ele se retirou sem falar algo além das formalidades adultas de homens que encontram mundos novos diante de si. Até semana que vem, disse um, o outro acenou que sim com a cabeça. No carro, um Gol 1000 de mais de 7 anos que ele se recusava a trocar para não gastar dinheiro demais da paróquia, tomou seu moleskine que ganhou num natal de um paroquiano e escreveu: confessionário, escutar mais, até o que não for importante na confissão e falar o menos possível. Deixar que as pessoas falem por si e se perdoem antes mesmo que Deus as perdoe por qualquer mera ofensa. Guardou uma caneta comum, mas antes de guardar seu caderninho de anotações, pegou a caneta de volta e pintou a frase: voltar à análise na próxima semana.

Por pseudomacario
Na próxima semana, teremos mais encontros sobre essa história fictícia no blog.

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