Ainda sobre o eterno, não cheguei à conclusão que desejo. Mas tenho pensado durante o dia sobre o fenômeno da vida. Não posso deixar aqui de manifestar a obra de Hans Jonas, o Princípio Vida, que recomendo a leitura. Lembro-me dos tempos de estudante na Universidade da Basiléia, especificamente das aulas sobre Jonas e dos seminários sobre O princípio vida e o O princípio responsabilidade. Mas gostaria aqui de citar um trecho de Jonas que pode nos ajudar a atingir algo a mais sobre o fenômeno do tempo e do eterno:
Liberdade dialética[1]
No conceito de liberdade possuímos um conceito-guia para a interpretação da vida. O segredo do devir em si mesmo é para nós inacessível. Então permanece uma suposição – para mim pessoalmente um forte hipótese: o princípio fundante de transição da substância bruta para a vivente já foi uma tendência bastante marcante em direção do profundo [in den Tiefen] do próprio ser. Mas certamente, e de modo imediato, é oportuno o conceito na descrição da mais elementar estrutura da vida. Neste sentido descritivo, a liberdade é, então, o caráter ontológico básico da vida enquanto tal; e também, como se demonstra, é o princípio contínuo – pelo menos de todo resultado – do seu progresso em direção aos níveis superiores, nos quais se constrói sempre liberdade sobre liberdade, a mais elevada sobre a mais baixa, a mais rica sobre a mais pobre. Nos termos do conceito de liberdade é permitido interpretar convicentemente o todo da evolução (do qual mais tarde devem ser dadas algumas demonstrações).
A tarefa de uma biologia filosófica seria seguir o desdobramento desta liberdade nuclear [ ou seja, originária][2] nos graus hierárquicos da evolução orgânica. Para nosso objetivo agora são suficientes poucas observações para mostrar alguns dos atributos que já encerram em si o nível definido básico através do metabolismo. Estes atributos estão a serviço para outras elaborações da evolução. Destes atributos podemos considerar que [também][3] pertencem à essência da vida.
(JONAS, Hans. O Princípio Vida [Das Prinzip Leben]. 2. ed. Frankfurt: Suhrkamp, 1994. p. 157-8 - Tradução livre: M.A.F. Mello)
Talvez uma das formas de manifestação epifenomênica mais clara para nós humanos seja o aparecimento da vida na terra. Mas me parece um erro pensar que essa aparecimento esteja separado do Eterno – daquilo que estaria fora do espaço e do tempo, embora a vida seja um aspecto fatídico no espaço e no tempo. Vamos além! A vida em quaisquer de suas formas apresenta, ainda segundo Jonas, um princípio de liberdade diante do ser não-vivo que seria o metabolismo e a estrutura com base no carbono. Recentemente todos ficamos admirados ao descobrirmos que pode existir formas de vida bacteriana que não dependem necessariamente da estrutura do carbono, aqui mesmo no nosso planeta. O fato abriu ainda mais a discussão para a vida fora do nosso planeta e suas condições favoráveis, para nós, terráqueos.
Ainda continuo pensando nessa manifestação da vida e concordo plenamente com que o metabolismo confere a nós viventes uma vantagem imensa ao que se antigamente, nos tempos escolares, chamávamos de ser bruto. As areias do deserto não possuem, é claro, metabolismo. Entretanto o deserto apresenta ainda mesmo como um ser bruto um dinamismo que poeticamente poderíamos como um rapsodo tê-lo como uma divindade e falar de suas peripécias e transformações. De modo menos poético, a evolução geológica da terra também apresenta um dinamismo que podemos comparar por analogia de proporção à manifestação da vida em si. Explico melhor: assim como conhecemos a história das placas tectônicas que se adaptam e se readaptam, assim também os seres vivos se adaptam e se readaptam. Ou mesmo na nossa vida de humanos, no decorrer de um dia passamos por inúmeros processos de adaptação não só quanto ao metabolismo, mas também quanto à psique.
A vida humana individual é, infelizmente ou felizmente, mortal. A vida da espécie também. A própria vida em si, considerada nos padrões do metabolismo, também não é imortal. A História enquanto acontecimento metafísico, que envolveria os entes viventes e não viventes, seria aquilo que me parece mais próximo de um Eterno em nós mesmos sem que sejamos nós esse eterno. Posso falar sobre isso apenas por mera analogia de proporção, não falo de um simples panteísmo, mas até onde podemos saber, até a presente data, o universo poderia estar no plano do Eterno.
Não o aspecto físico do universo, pois se o eterno está fora do tempo, o universo para ser eterno, por necessidade lógica, deveria não ter começo, sequer uma possibilidade de fim, que não é contraditória, mas difícil de ser pensada por nós. Enfim, o Eterno estaria na base do todo e se identificaria com ele, sem ser ele mesmo parte do todo ou próprio todo. Pensar na teoria do Big Bang sem algo antes somente é possível através de uma criação ex nihilo ou do nada – tradição muito cara às religiões e tradições monoteístas. Todavia, se pensarmos na tradição oriental, por exemplo o taoísmo e outras tradições, numa história cíclica, o próprio Big Bang seria um momento do eterno.
Momento do eterno parece um erro grave, todavia como pensar algo fora do espaço e do tempo (em mente me vem a figura de Kant) para nós, humanos? Assim, concluindo esse meu diário filosófico hoje, poderia dizer que a vida enquanto o todo e o universo enquanto campo de manifestação da vida seriam um dos epifenômenos que nos uniria ao tempo e ao eterno. Uma ponte, poderíamos assim cantarolar. Nessa distribuição ouso mesmo a pensar a vida como manifestação do eterno, e essa vida que me direciono seria algo maior do que Jonas considera como metabolismo, mas o universo noético ou de pensamento no qual estamos inseridos pela liberdade alcançada pelo nosso próprio processo evolutivo. Que alívio! Sinto-me um pouco eterno agora.
Sei que ainda não consegui concluir – e cada momento acho isso mais duro de se chegar – algo mais concreto ou claro sobre o Eterno, mas talvez com o desenvolver desses diários metafísicos, possamos ir mais adiante. Se não, se tudo for falso, foi válido a transcendência do usual e, assim, na vida do espírito, chegamos mais próximos do Eterno que almejamos.
[1] Introdução da parte VIII (Liberdade dialética) do capítulo V (Deus é um matemático?: sobre o sentido do metabolismo).
[2] Nota de tradução. Original: keimhaften.
[3] Idem. Todos as palavras entre colchetes foram colocadas por nós para tornar o texto compreensível, dado que Jonas abusa do estilo utilizando muitos adjuntos preposicionais que não dispomos em vernáculo.



Em primeiro lugar καλημέρα...rsrs Desbravar conceitos tão excelsos como “vida” e “eterno” subsidiadas com “liberdade” e “evolução” são ótimos aperitivos para iniciar esta manhã com todas os desafios que na dinamicidade da vida esta nos implica. Assim como você, também sou apaixonado pela expressão βλεπια,no qual não posso deixar de me abandonar na contemplação do SER enquanto ente dotado de mistérios bem como toda a estrutura metabólica que o cerca. Adorei o texto de Jonas, mais ainda o comentário! Acatei seu convite aos “metassemelhantes” embora me enquadre nos “parassemelhantes” e agradeço!
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