Sentimos coisas, imaginamos e pensamos. O nosso ser ou a nossa pessoa[1], e aqui me limito extritamente ao sujeito consciente de si mesmo, o ato da aperção, em um único instante de eternidade, quando se sujeita o homem[2] por livre vontade ou coagido externamente à aperpção ainda fora do tempo, num ato de vontade, id est, decide-se se cumprimos as pulsões ou se as sublimamos ou simplesmente fugimos delas. Um exemplo para tentar ser menos técnico: Ao estar no ponto de ônibus uma criança que parece não ter certo controle derrama sorvete em você. O sujeito que se apercebe pode como que quase fora do tempo, por um instante de eternidade, decidir seguir todo o seu dia irratado ou simplesmente achar graça do acontecimento, ou ainda alcançar um meio termo (virtus in medium, a virtude se direciona ao meio – traduzi assim porque medium está no acusativo e passa a idéia belíssima aqui de movimento em busca da virtute[3]), ao sorrir para a criança e voltar para casa tranqüilo para trocar a camisa suja.
Talvez os físicos consigam determiner a fração de segundo em que tal transmissão cerebral se realiza, o que é um admirável trabalho, mas a aperpção é algo acima de uma tal velocidade percebida que confundimos nossas próprias perpecpões do mundo com nossa psique.
Ou devem estar separadas a psique e as percepções – o que nos parece impossível porque tal tempo é imensurável e eterno para o sujeito que se apercebe -, ou são a mesma, mas isso parece também impossível por ter o sujeito a capacidade aqui luminosa de autoquestinamento. Na realidade, me parece, no momento, uma falsa idéia ou concepção da razão, por uma necessidade lógica do nosso mundo da vida que essas realidades coexistam. E não me refiro a qualquer forma de idealismo, muito ao contrário, trata-se de uma postura ao extremo realista. Explico-me.
A inseparabilidade das percepções externas e da apercepção é dada somente porque somos incapazes de distingüi-las e para nós elas e nós somos o mesmo, sem haver uma fusão completa do sujeito com suas sensações. Duas realidades coexistem: as percepções externas e apercepção. Não se separam, mas também não deveriam ser confundidas com o sujeito. O dualismo sujeito-objeto tão metafisicamente discutido parece aqui não existir e existir ao mesmo tempo.
Talvez aqui, no instante, se transforme o mundo do sujeito através de uma ascese intelectual, cujo treino se basifica quase que somente no treinar a separabilidade na consciência do que se é e também daquilo que se sente. Isso pode causar certo sofrimento em almas retóricas e moralistas. Mas me parece simples, o fato de não poder diferenciar não significa que não sejam distintos o homem e suas pulsões[4], nem todavia o fato do eu poder em algumas circunstâncias conscientizar-se da realidade presente da pulsão. São uma e outra ao mesmo tempo, trata-se apenas de mudança de perspectiva da própria apercepção.
Mas por que será que meus pensamentos se têm voltado tanto à metafísica[5] e menos a qualquer outro método? Simples também, pois a realidade a que me direciono ou lanço o olhar é movimento. Chegamos a essa conclusão pelo exposto acima. Lembramo-nos de Heráclito e do seu mais que famoso panta péi[6]. Conheço pouco a fundo o pensamento heraclítico para tentar justificar minhas conclusões ontológicas[7] no referido pensador.
Podemos chegar, entretanto, a quatro conclusões sobre o breve até agora refletido:
1) o eterno é uma vivência para nós tanto como sujeitos quer como seres perceptivos e aperceptivos (homens reais e viventes);
2) o eterno pode ser apercebido pelo sujeito e o homem que lhe é correspondente (forço aqui isso pois num futuro teria vontade de discutir tal assunto com o fenômeno da simpatia), e assim parece haver separabilidade entre entre sujeito e objeto na viviência do eterno;
3) o eterno poder não ser apercebido pelo sujeito e o homem que lhe é correspondente verifica a inseparabilidade de si e das próprias perpeções;
4) o eterno é um êxtase ontológico (quiçá poético[8]) também que se apercebe das duas realidades presentes no ser homem enquanto sujeito cognoscente e ente ou ser[9] emotivo.
Surge-me aqui a dúvida se esta realidade do eterno na apercepção pode ser compartilhada como uma possibilidade a priori dos sujeitos.
[1] Pessoa: sujeito que se percebe enquanto sujeito e age enquanto tal ou centro dos atos cognoscíveis e/ou emotivos do homem. Uma realidade ontológica.
[2] Homem: o ser concreto que vê os objetos como entes e ao mesmo partilha com toda um realidade ao seu redor uma vivência.
[3] Virtude: no sentido de excelência ou areté
[4] Negativas particulares não invalidam universais afirmativas por necessidade lógica, tal como se encontra no estudo do quadrado das oposições.
[5] Metafísica: metá = além de, de pois de. Fisica: de fysis, a natureza ou aquilo que brota da terra, ou ainda, aquilo que emerge no universo ou mundo pelo simples fato do pensamento ser pensado, do verbo fyo = nascer, brotar. Do mesmo que o equivalente latino natura ver nascor: nascer
[6] Tudo flui [NA]
[7] O mesmo que metafísica. Do grego, on, ontos, aquele que é.
[8] Lembro aqui do verbo poio = fazer, realizar e da poiesis gregas.
[9] Para nós parece clara a distinção mental de ser e ente. Usamos até agora um ou outro para facilitar a compreensão do texto, desde que não atrapalhe o seu sentido.
Talvez agora eu esteja iniciando essa jornada metafísica contigo. Digo isso no sentido de compreensão, de participação ou inserção pessoal no caminho que está traçando com sua reflexão até agora. Mais à frente pretendo reler todo caminho feito para conferir se essa participação foi bem compartilhada.
ResponderExcluirAbraço!
Não vou deixar de escrever em sinal de gratidão. Sinto-me uma pouco como Descartes, como menos método e houver pretensão é somente aquela do pensar. Quero começar a escrever meus próprios pensamentos. Não aonde chegarei. Mas obrigado mesmo pela força e apoio, tem sido um grande incentivo para mim
ResponderExcluirParabéns pelo blog, continue escrevendo, pois gosto de ler ele :)
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