Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

sábado, 3 de março de 2012

Dentro do tempo do Eterno



   Sábado de manhã, algumas nuvens, mas parece que vamos ter um sol de brigadeiro! Acordei muito cedo para um dia como esse, também ontem tive um dia “estressante” com a burocracia estatal. Resolvi um problema sério no meu serviço público, minha licença médica – agora tudo resolvido! Não?! Descobri que estou sem honorários nesse mês e não tenho como pagar as contas mínimas. Mas não tenho estado desesperado como outrora, apenas com uma apreensão positiva. Mais uma coisa burocrática a resolver, deverá haver solução. Assim espero. E aqui começo minha meditação metafísica: o ETERNO.

   É claro que na nossa cultura ocidental o eterno nos lança o olhar para o suprassensível, e eis que é verdade, mas como se fosse algo existente fora de nós, dado que nossas percepções são epifanias espaço-temporais. Mas apesar de passar por tantas coisas que me são desagradáveis, como a burocracia, me mantive estável e firme. E me vem à mente a pergunta: por que algumas vezes situações como essa me tiram a tranquilidade necessária à Filosofia e outras vezes não? Deve ser o ETERNO. Saber que essas coisas que acontecem se localizam no espaço e no tempo, mas que existe em mim uma realidade não empírica que me mantém em um estado de humanidade, ou como se diz no budismo nichiren, tranquilidade. O eterno para nós poderia então ser dividido em dois momentos:

1) o eterno em si e por si, que seria nossa parte psíquica que sofre os ventos dos acontecimentos espaço-temporais, e nos remetem à também realidade da mera vivência empírica. Digo que esse eterno é em si porque simplesmente mesmo que não o percebamos, como que naqueles dias nos quais “descompensamos” na quotidianeidade, ele é presente, mesmo sem nossa consciência sobre ele. Também afirmo que essa forma de eterno é por si pois está sempre a nosso dispor desde que tomemos consciência dessa nossa forma de existência. Surgem assim dois conceitos nessa minha reflexão, que claramente remete ao existencialismo – mas independente do mesmo – o em si e o por si.
            O em si é o que é e não o percebemos por quaisquer circunstâncias, quer conscientes ou não. Não posso negar que há pessoas que deliberadamente vivem como se o em si não fosse. Desse modo, existem para suas consciências somente o tempo, geralmente o tempo presente e cronológico. Para mim, parece que é perfeitamente possível viver assim, a menos que o indivíduo tenha uma sensibilidade metafísica mais apurada.
            O por si também poderia ser chamado de por mim, pois é todo fenômeno não empírico que vivencio e lanço alguma forma de valor e juízo sobre ele, como por exemplo, tal sentimento é bom ou ruim, tal ideia é coerente ou não, etc.

2) O eterno como desejo de imortalidade. Esse eterno está de modo necessário como um por si e jamais pode ser simplesmente em si. Até onde podemos ter um certo grau de certeza, por um certo tempo cronológico, podemos atingir esse eterno através da História, deixando um legado à humanidade, muito próximo do que Hegel chamaria de “indivíduo histórico universal”. Outra maneira de atingir essa imortalidade seria através daquilo que passamos cultural e geneticamente aos filhos ou àqueles de quem cuidamos, sobre os quais somos responsáveis (como cultura ou Kultur no caso da paternidade, por exemplo), mas também culturalmente (como formação ou Ausbildung, no caso do professores). Esse eterno parece ser mais comum à reflexão nossa, digo aqui mais comum porque o fenômeno da morte é, como diz Heidegger, nossa única certeza absoluta diante do infinito de possibilidades.

   Ainda sinto falta de falar mais sobre o tempo e o eterno, sobretudo da relação existente entre os dois, que acredito piamente que haja, como também sobre a possibilidade de um eterno completamente separado (que suponho que haja) do espaço e do tempo em que vivemos. Algo maior que preciso ainda refletir mais e será, quiçá, o tema da nossa próxima reflexão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sinta-se livre para expressar sua opinião.