Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Depressão - continuação a partir do


Parte  I
1.     A depressão
Ao procurar no dicionário o verbete desse título fiquei “deprimido”, me senti cansado e exausto só de quantas coisas semelhantes entre si esse único termo pode assumir-se. Mais assustador ainda foi verificar que o termo se aproxima demais com depreciado, depreciar, etc. A palavra em si já não ajuda pela correlação estabelecida entre outros termos, ora negativos ora nem tanto positivos.
Eu chamaria a depressão de mais um  “rótulo” e para podermos pensar filosoficamente esse fenômeno chamado depressão devemos restringir ad initium o que compreendemos por depressão: um estado clínico de origem psíquica, cujo indivíduo demonstra apatia ou manía, que perdura por mais tempo que um fato triste ou compulsivo  – no mínimo, quatro semanas.
Partindo pela lógica de Aristóteles, toda definição deve conter o mais geral especificado por um caráter único. Brinco com meus alunos que definição é igual ao gênero mais sua diferença específica. Assim, podemos começar aqui a melhorar nossa compreensão do que venha a ser esse fenômeno “depressão”. O Gênero seria um estado clínico de origem psíquica. Se falamos de um estado, como um estado de coisas, como essa cadeira é nova ou esta mesa é antiga, sabemos que se trata de um momento, de um instante se pensarmos em termos de Universo, e um período demasiado longo se pensamos em tempo cronológico para  os humanos. Para o deprimido, essa relação fundamental entre tempo e espaço se perde, se desfaz; por isso os outros, amigos e família precisam ser extremamente pacientes. Esse estado parece que aguda que o torna o instante da depressão ilusoriamente uma eternidade, não que exista (assim parece ser) nada no mundo capaz de ultrapassar esse instante cósmico de sofrimento individual e coletivo.
Fiquemos ainda analisando o gênero: é um estado, algo que existe no tempo, logo se concretiza também em algumas formas temporais,  como quando o deprimido se encontra numa clínica de repouso.
Por que um estado clínico?
Esse acontecimento envolve uma série de sujeitos: o deprimido, o deprimente, o ambiente circundante que circunda o deprimido e o sujeito que se deprime.

2.     Deprimido

O deprimido é o sujeito empírico que não consegue mais de autorreconhecer como um sujeito livre. Todas as suas possibilidades não serão - pelo menos em sua mente - concretizadas pelo simples fato de lhe faltar um item fundamental em sua existência: o ser sujeito do próprio existir. Não é proposital que uma pessoa se torna deprimida, mas lhe aparece um diagnóstico como esse como um vento de primavera matutino – alivia no início, mas causa transtorno por desarrumar as coisas em uma varanda ou num jardim. O deprimido tem simplesmente perdido sua identidade, deixa de realizar hábitos os mais simples sem quaisquer motivos aparentes: não se levanta da cama, não cuida da higiene pessoal, pode ser isolar socialmente de forma radical, sem contar inúmeros sentimentos que os assombram a cada segundo. O dito cristão antigo de que mente vazia é a oficina do diabo se encaixa perfeitamente aqui. A mente está vazia do eu que até a um tempo atrás o indivíduo se reconhecia, é uma oficina porque milhares de idéias mirabolantes lhe passam ao intelecto e o diabo é simbolizado simplesmente porque essas idéias ou não serão concretizadas ou não são idéias que lhe trarão conforto necessário.
            O silêncio do deprimido expressa, grita e significa a dor emocional que passa a essa pessoa. Muitas vezes esses silêncio é expresso no isolamento social, outras na hiper-atividade mental e social em que o deprimido se envolve como forma de fugir da sua Jocasta ou destino. O diagnóstico médico, com todo respeito, é mais um oráculo grego do que uma indicação de tratamento: remédios e terapia serão o destino do deprimido, contra sua própria volição ele agirá, um destino implacável que sem conseqüência não pode ser negado.
Os remédios lhe irão  lembrar todos os dias, diversas vezes que ele é um doente e a terapia machuca para sanar ainda mais as feridas que o levaram a esse estado.
            O deprimido está só, sem ele mesmo e sem aqueles que o amam. Não tem responsabilidade sobre isso. Por isso podemos aqui traçar uma analogia entre a depressão e a idéia de tragédia grega que envolve o destino – não adianta fugir, é inevitável o oráculo. Por sorte tem uma diferença real e não formal entre os elementos da analogia acima: a tragédia está no plano do eterno, é educativa e universal; a deprimido está num longo presente no qual parece desaprender tudo em sua vida e isso é absolutamente particular.

3.     Deprimente

          Chamo aqui de deprimente aquilo que deprime uma determinada pessoa ou a epifania de um conjunto de elementos que podem levar um humano a ter uma realíssima imagem de si mesmo, dos outros e do mundo ao redor que seja em si distorcida de como os outros vêem essa mesma realidade. Essa característica é deveras importante porque os outros podem por si só se sobressaírem como deprimentes, o outro deixa de ser um outro e se encarna na figura daquilo que deprime: o deprimente.
Um bom exemplo seria quando uma determinada pessoa percebe, quer por si quer por meio de uma alavanca, como uma terapia, que para o que a pessoa realmente deseja e não simplesmente tem volições instintivas de ser, esses outros são apenas mais uns outros quaisquer. Muitas vezes a mera opinião ou modo de viver, assuntos de interesse, etc. são todos tomados por um desconforto como se aqueles interesses não participassem do seu próprio jogo da vida.
           Um deprimido diante do deprimente se encontra numa verdadeira crise existencial em que lhe faltam sentido para todo e qualquer assunto. O motivo pelo qual ele busca ser não se conecta de modo adequado aos sujeitos analógicos com os quais o deprimido se relaciona.
          Em poucas palavras podemos dizer que o deprimente é um ens rationis, um ente de razão, mas que nem por isso deixa de ser realidade fática para o deprimido. Daí advém toda dificuldade de conversação quer terapêutica quer não entre um sujeito deprimido e outro não-deprimido. Para o deprimido, o outro não passa de um ser inautêntico, que não busca significado para e porquê do seu existir nesse ou naquele modo de ser. Enquanto isso, o sujeito não-deprimido vê o mundo do deprimido apenas como idéias ou pensamentos frágeis de um adoecido, digno de compaixão, todavia essa mesma realidade é efetiva e sem nenhuma solução ou sem alguma perspectiva de mudança para o sujeito deprimido que as cria. Podemos dizer que quando alguém de fato entende o se que lhe deprime há um diálogo por simpatia, no sentido que Scheler dá ao termo, ou seja, por encontrarem um mesmo objeto de dor (o mundo tal qual se torna epifania).

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