Wer das Tiefste gedachte,
Liebte das Lebendigste!
Quem pensou o mais profundo,
Ama o mais vivo!
(Hölderlin, poeta alemão)
Caríssimos alunos,
Por que a experiência iluminista continua ainda tão ávida entre nós: pensar por si mesmo, agir por si mesmo, esperar por si mesmo (Cf. Kant, Was ist Aufklärung.)? Será somente por uma mera necessidade técnica para se alcançar meios como o vestibular ou boas universidades mundo afora? Será que ainda temos a necessidade de provar ou demonstrar aos outros nossa maturidade quer acadêmica quer quaisquer outros modos? Acredito que não. A experiência do pensar deve se renovar no âmago de todos nós a cada instante, a cada olhar e ser algo tão íntimo que jamais se permita dizer de nós o que se aplicava aos escravos romanos e, coloco aqui também, aos escravos livres da sociedade hodierna, filha da deusa rotina: arate, cavate, morit, enterrate (arar, cavar, morrer e ser enterrado). Queremos ser livres, jamais outra coisa por semelhante que possa parecer. Aqui termina o 3º. Ano do Ensino Médio e se inicia o ano da graduação para muitos, e usufruindo do aforismo jurídico: annus coeptus pro completur habetur.[1]
Apesar de tudo já estar aí, pronto, coisificado em determinados rituais de passagem, queria conduzi-los uma vez mais a refletir : o que é pensar o mais profundo? A resposta é simples, como toda poesia deve ser, e é uma resposta a priori, por isso analítica, presente no próprio verso: quem (wer, em alemão). Quem sou eu? Quem eu fui? Quem serei? Espero e confio que todas as disciplinas do colégio tenham ajudado a responder essas perguntas básicas, pois ao contrário nosso diploma tem valor algum, sequer de troca. Um tolo responderia – eu sou “um Zé”, filho de fulano e trabalho aqui e desejo isto e não aquilo. Creio que vocês hoje não podem ser tolos e se contentarem com essa resposta. O homem é um ser aberto ao mundo, às suas possibilidades, um projétil lançado ao infinito que só ele mesmo pode eleger seu destino, a partir da força vital que brota em cada vivente, mas que em nós alcança a sublime arte de pensar.
“Arate”, arar se forem escravos, vocês simplesmente prepararam uma cadeira em sala de aula de uma universidade qualquer. Mas se forem senhores de si, prepararam não a si mesmos, mas o mundo que os rodeia, que apesar de todas as transformações continua a ser nosso mundo. Arar para semear, mas o quê? A própria existência que cada um nós exige para si mesmo como autêntica, não coisificada. Muitos se orgulham pelas ruas, fora do ambiente de trabalho, ao caminhar com o crachá de uma grande empresa. Ah, por favor, não façam isso, mas arem e semeiem coisas que faça a empresa ou algo parecido a ter orgulho de poder colocar seu nome e sua foto em algo que lhe pertence. Deparamo-nos com dois tipos humanos aqui: o escravo que se orgulha do senhor ou senhor que se alegra por ter tido um escravo tão bom. Agora passa a ser uma questão de escolha.
O que é amar o mais profundo? Ad primum parece-nos que tal resposta já não está a priori no verso. Mas uma boa análise poderia nos conduzir ao sujeito da oração: quem (novamente, wer em alemão). Amar a si mesmo e por si mesmo talvez tenha sido um dos elementos que colocou e coloca o Iluminismo como mitológico na contemporaneidade (Cf. ADORNO, Begriff der Aufklärung). Não desejo aqui colocar uma crítica acadêmica ou analisar esse pensador, apenas conduzi-los a reflexão que não se pode pensar por si mesmo, agir e esperar por si mesmo sem amar a si, e esse é o mais profundo: o próprio eu. É a experiência do espelho, do ver a si mesmo e amar o que se vê, e repito, esta é a única funcionalidade de uma instituição de ensino: chegar ao mais profundo, ao eu, e torná-lo, como dizem os alemães uma “Weltoffentlichkeit” ou abertura ao mundo.
Cavate, aqui cavar adquire um sentido de aprofundar o que já foi semeado. Essa abertura ao mundo dada pelo colégio nas suas diversas disciplinas exige de vocês nesse ano vindouro que já está completo, como assinalado acima, um aprofundar do amor a si mesmo. Não é a orientação ou escolha profissional que está em pauta, mas a felicidade ou infelicidade de cada um vocês. O escravo cava para o senhor, o senhor cava para encontrar a melhor terra para suas sementes. O que somente poderia ser melhor do que um amor incondicional a si? É egoísmo, gritaria um beócio nesse momento, todavia não há sequer um milímetro de egoísmo porque indubitavelmente através do amor a si podemos reconhecer no outro também um ser que ama. É impressionante pensar que os grandes malfeitores da história tenham tido seus amores. Não se ama nada nem ninguém sem antes um profundo amor a si mesmo. Cavar aqui é ir além das aparências da terra, de uma egolatria disfarçada de benfeitoria – cavar é aqui é pensar o mais profundo.
Morit, aqui morrer não quer dizer deixar a energia vital em estado latente ou assumir uma outra vida no paraíso, ou etc. mas presume a angústia heideggeriana de nos conhecermos como um Sein zum Tode (Ser para a morte) e que cavamos nossa própria história. Desejo a todos uma autêntica angústia que se torne liberdade, alcançada pelo amor a si e cultivada pelo pensamento mais profundo. Trata-se de um exercício diário o amor a si e o angustiar-se por si mesmo, e não tem relação como o medo do futuro ou da morte, mas sim a esperança no eterno presente que nos encontramos, no verdadeiro sentido do carpem diem: como disse Sêneca, um dos meus favoritos, calamitosus est animus futuri anxius[2]. Só poderia terminar essas poucas linhas parafraseando Hölderlin:
Ihr das Tiefste denken dürften,
so liebte das Lebendigste!
Que vocês possam pensar o mais profundo
Então amarão o mais vivo!
Com respeito e carinho
Prof. Dr. Michell A. F. De Mello
Cultura Clássica e Filosofia
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