Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Parte  I
1.     A depressão
Ao procurar no dicionário o verbete desse título fiquei “deprimido”, me senti cansado e exausto só de quantas coisas semelhantes entre si esse único termo pode assumir-se. Mais assustador ainda foi verificar que o termo se aproxima demais com depreciado, depreciar, etc. A palavra em si já não ajuda pela correlação estabelecida entre outros termos, ora negativos ora nem tanto positivos.
Eu chamaria a depressão de mais um  “rótulo” e para podermos pensar filosoficamente esse fenômeno chamado depressão devemos restringir ad initium o que compreendemos por depressão: um estado clínico de origem psíquica, cujo indivíduo demonstra apatia ou manía, que perdura por mais tempo que um fato triste ou compulsivo  – no mínimo, quatro semanas.
Partindo pela lógica de Aristóteles, toda definição deve conter o mais geral especificado por um caráter único. Brinco com meus alunos que definição é igual ao gênero mais sua diferença específica. Assim, podemos começar aqui a melhorar nossa compreensão do que venha a ser esse fenômeno “depressão”. O Gênero seria um estado clínico de origem psíquica. Se falamos de um estado, como um estado de coisas, como essa cadeira é nova ou esta mesa é antiga, sabemos que se trata de um momento, de um instante se pensarmos em termos de Universo, e um período demasiado longo se pensamos em tempo cronológico para  os humanos. Para o deprimido, essa relação fundamental entre tempo e espaço se perde, se desfaz; por isso os outros, amigos e família precisam ser extremamente pacientes. Esse estado parece que aguda que o torna o instante da depressão ilusoriamente uma eternidade, não que exista (assim parece ser) nada no mundo capaz de ultrapassar esse instante cósmico de sofrimento individual e coletivo.
Fiquemos ainda analisando o gênero: é um estado, algo que existe no tempo, logo se concretiza também em algumas formas temporais,  como quando o deprimido se encontra numa clínica de repouso.
Por que um estado clínico?
Esse acontecimento envolve uma série de sujeitos: o deprimido, o deprimente, o ambiente circundante que circunda o deprimido e o sujeito que se deprime.

2.     Deprimido

O deprimido é o sujeito empírico que não consegue mais de autorreconhecer como um sujeito livre. Todas as suas possibilidades não serão - pelo menos em sua mente - concretizadas pelo simples fato de lhe faltar um item fundamental em sua existência: o ser sujeito do próprio existir. Não é proposital que uma pessoa se torna deprimida, mas lhe aparece um diagnóstico como esse como um vento de primavera matutino – alivia no início, mas causa transtorno por desarruma as coisas em uma varanda ou jardim. O deprimido tem simplesmente perdido sua identidade, deixa de realizar hábitos os mais simples sem quaisquer motivos aparentes: não se levanta da cama, não cuida da higiene pessoal, pode ser isolar socialmente de forma radical, sem contar inúmeros sentimentos que os assombram a cada segundo. O dito cristão antigo de que mente vazia é a oficina do diabo se encaixa perfeitamente aqui. A mente está vazia do eu que até a um tempo atrás o indivíduo se reconhecia, é uma oficina porque milhares de idéias mirabolantes lhe passam ao intelecto e o diabo é simbolizado simplesmente porque essas idéias ou não serão concretizadas ou não são idéias que lhe trarão conforto necessário.
            O silêncio do deprimido expressa, grita e significa a dor emocional que passa a essa pessoa. Muitas vezes esses silêncio é expresso no isolamento social, outras na hiper-atividade mental e social em que o deprimido se envolve como forma de fugir da sua Jocasta ou destino. O diagnóstico médico, com todo respeito, é mais um oráculo grego do que uma indicação de tratamento: remédios e terapia serão o destino do deprimido, contra sua própria volição ele agirá, um destino implacável que sem conseqüência não pode ser negado.
Os remédios o lembrar todos os dias, diversas vezes que ele é um doente e a terapia machuca para sanar ainda mais as feridas que o levaram a esse estado.
            O deprimido está só, sem ele mesmo e sem aqueles que o amam. Não tem responsabilidade sobre isso. Por isso podemos aqui traçar uma analogia entre a depressão e a idéia de tragédia grega que envolve o destino – não adianta fugir, é inevitável o oráculo. Por sorte tem uma diferença real e não formal entre os elementos da analogia acima: a tragédia está no plano do eterno, é educativa e universal; a deprimido está num longo presente no qual parece desaprender tudo em sua vida e isso é absolutamente particular. 

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