Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sol terram iluminat

19 anos. Alguns meses para os 20 e ainda muitos sonhos e desejos de salvar o mundo. Muitos entram na sala, mas muitos eram, na realidade, apenas a qualidade, pois éramos apenas quatro. É verdade que no início éramos 21, eu acho. Mas desde o início de nossas vidas jamais fomos mais do que 17 ou 18. Eu me lembro do medo do novo que sentia naqueles dias, cada vez mais distantes. Latinorum, quarta conjugação da voz passiva e olha a silabada, Puer[i]! Eu queria me esconder em mim mesmo até desaparecer, acho que nunca tive tanta angústia em ambiente coletivo, com certo grau de exagero. Tomei a melhor decisão possível – me livrar das aulas de latim. Nunca mais passar aquela vergonha de traduzir uma banal (segundo os latinistas) fábula de Fedro com o primeiro “verso” em algo do tipo “e (em branco) os ovos da vaca” – era ridículo, eu sabia e derrubar a fortaleza discente em minha frente. Vou estudar sozinho, queria ler Eneida e mal conseguia degustar um texto do medievo – era para ser (mais) um medievalista! O latim me salvou, reconheço. Estudei só, permaneci solitário com o dicionário e a gramática e o caderno: éramos quatro com uma luminária, nem amarela nem branquíssima, uma caneca de chá que me levara há horas e estava fria, um cd player antichoque que jamais balançava porque nunca saía do quarto. No ônibus, se lê – inocência.

Criei antipatia por Santo Agostinho uma vez. Ele dizia sem maiores pudores que não entendia a lógica do grego, ao contrário do latim que lhe parecia claro e evidente. Ah, o grego, traduzir o Eutífron de Platão foi uma alegria, ler Aristófanes no original me levava ao Monastiraki e via no meio da agitação da neotumultuada pólis capital da Hélade a preguiça agitada da antiguidade. Sim, até hoje me divirto com eles, mas não com a mesma excelência de antes. Digamos que seja a idade.

Mas antes de me direcionar ao oeste em imagens, eu dizia, éramos quatro. Nós e o mestre. Amigos, clima informal, impressionados por sua grande elegância e simplicidade, classe e ternura, rigor e afeto. Eram analogias, aulas e aulas sobre analogias, em todas as benditas disciplinas e tal técnica me torturava porque me lembrava os ratinos, digo, latinos. Antecipava antes da idade correta a existência autêntica indesejada imaginando que já era um ser-para-morte, zum Tod(e) wegen Lateinischen, gritava, e sussurrava Analogien auch![ii]

Éramos quatro, muitos foram embora ou simplesmente não apareceram. A figura do orador à frente alcançava seu fim: permanecíamos. Proporção ou distribuição? Ricoeur? Não, o sol está para a terra assim como o mestre está para o discípulo. O inocente dirigente tenta explicar o que estava por trás da beleza poética da analogia, e ao me perguntar distributiva ou proporcional, disse que as duas me pareciam o mesmo em perspectivas diferentes. Tenta todavia, carente de resultados, me elucidar a mim mesmo dizendo, com exemplos afetuosos, para eu pensar nos grandes mestres latinos e relacioná-los com o sol e a terra. Se o sol ilumina a terra, assim também o mestre ilumina o discípulo. Será? O maldito escrito estava em latim para degradar minha inocência autêntica.

Claro que não, o sol causa hoje câncer! Dei-lhe a palavra com bastante retórica: eles me causam câncer, assim como o sol a nós na terra.

Muitos risos. Pausa para um café com bobagens. Todos conheciam meu amor à língua dos césares e o desprezo dela por mim. Pelo menos, me diverti.

[i] À morte pelo latim, e sussurra pelas analogias também!

[ii] Menino, em latim.

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