Mas lancemos nosso olhar (blépomen) sobre a imagem da montanha.
Na cultura semítica, Iavé entrega a Moisés as Tábuas da Lei numa montanha. Moisés desce com os 10 mandamentos que ajudariam ao povo eleito a ser quem deveria ser, na medida em que obdeceria aos mandamentos.
A saída da caverna[1] na alegoria de Platão (o famoso mito da caverna) também pode ser visto como uma escalada, pois se trata de uma caverna subterrânea. Sair da caverna é um ato livre do indivíduo que vive na ilusão e sobe à superfície para VER melhor. É uma espécie de ética intelectualista, ao modelo socrático[2].
A ética teleológica de Aristóteles[3] é uma aplicação dos seus princípios de Filosofia Primeira ou metafísica, considerando seu hilemorfismo[4], em que a forma substancial determina a matéria e a matéria limita a forma substâncial do entes quantitativos ou quanta. Enfim, é um descer da abstração à prática, um certo inverso do pensamento platônico que é subir à montanha para depois retornar à caverna na sua função social.
O Zaratustra de Nietzsche desce a montanha com a boa-nova da liberdade e rompimento com os valores fracos de Apolo que determinam negativamente a liberdade humana. O profeta, no alto da montanha, viu, lançou olhar sobre o homem, e desceu a lhes falar sobre o que viu e acredita.
Há quem diga que a voz de Deus no Sinai foi tão forte ao entregar o Decálogo ao povo que uniu Israel por mais de 3000 anos, mesmo sendo uma povo sem território após a destruição do Templo no séc. I d. C. E o que o silêncio no Holocausto foi talvez mais forte que a voz. Sem uma voz da montanha, divina ou profética, a ética se torna moral – tudo não passa de costumes e hábitos. Sem liberdade.
O que podemos concluir dessas e de outras imagens para compreender a ética e a moral? Creio que em qualquer situação o homem precisa, em algum momento, sair da sua superfície ou superficialidade e repensar criticamente seus atos, ir à montanha de si mesmo e dos seus, e rever as nossas ações. Ao subir à montanha, colocamos a ética no topo; ao descermos, usamos a moral. É um escolha: nas duas se pressupõe liberdade.
O fato é que as imagens descritas implicam num caminho: às alturas. Quais são? Enfim, ser é transcender. Ainda que não escolhamos a montanha, mas a superfície, se mantém a liberdade que pressupõe um “montanha” ou ética. Podemos sempre escolher como vamos comtemplar as alturas da humanidade, da superfície ou da montanha. Na montanha, recebemos a liberdade e a comunicamos àqueles embaixo; na superfície, só podemos ter uma moral determinante que limita a existência mais do que os ventos da montanha possam indicar o caminho.
Para blepar melhor:
[4] http://es.wikipedia.org/wiki/Hilemorfismo
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