Bem Vindos à Blépia

Apenas lançando olhares sobre coisas e nomes.

sábado, 18 de outubro de 2008

Amei-te e por te amar...

Recebi esse poema hoje e fiquei emocionado com a profundidade, talvez tenham sido as reticências....
AMEI-TE E POR TE AMAR... (FERNANDO PESSOA)
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras meu amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras.
Creio Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma,
foraDo Lugar e da Hora...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstrato
Que vai entre alma e alma...
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei...
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo...
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhamos.
Eras real e eu era real.
Tuas mãos - tão sinceras...
Meu gesto - tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Amamo-nos deveras? Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
O mesmo que és...
E finda Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas senti-lo...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobri-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei.
Fernando Pessoa

3 comentários:

  1. Terá que ser assim, valorizar o ausente, ou nós estamos tão voltados para a superficialidade, que só nos lembramos de quem somos ( e ai está tambem o outro - o amor nos faz UM - ou deveria ), quando sofremos, pensando ter perdido algo de nós. Penso que quando um 'objeto de amar' se vai, recuperamos nossa integridade, pois passamos inteiramente ao amor do Eu, à plenitude. Isso se buscarmos a consciencia...

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  2. Não conheço você, mas acompanho seu blog. O poema é lindo, mas ao mesmo tempo porque revela um coração partido de quem te enviou e que se arrepende. Pobre menina! É isso? Ela tá apaixonada, dá uma segunda chance. Adoro seus posts. Bjs, Ana.

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  3. Sra. Urtigão, (rs)

    Concordo com vc, só se pode amar realmente se antes nos formos completos, um pouco do mito do andrógeno e contra o nascimento de Éros.

    Cara Ana,

    Obrigado por "blepar" aqui. Não se trata de ninguém apaixonado, eu acho, rsrsrs, nem de uma ex-namorada, apenas me enviaram e achei bonito e se moveu em mim uma série de pensamentos que fiz.
    Abreijos

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