Ele chegou em casa. Dezessete horas. Um banho. Barba afeitando. Olhar no espelho do quarto. O outro, aquele do espelho, está sério demais e pede para conversar. Marcos finge não vê-lo, pois as últimas conversas foram um pouco pesadas, por demais reflexivas para ambos. Eles nunca foram grandes amigos, mas eternos cúmplices. O outro é muito sincero, mas demais abstrato. Marcos é fugidiu nas palavras, mas realista nas suas circunstâncias. Ele fala com o Outro do espelho, no melhor diálogo monológico que um mortal pode ter.
Marcos estava bem, chegou à constatação que sua vida não tinha problemas – pelo menos os sérios, ele pensou. Não era possível isso estar acontecendo, pois ele sempre passou por momentos difíceis e agora observa que tudo lhe parece demasiado fácil.
Era fácil se relacionar com a família, todos o observavam de longe, de modo impessoal, do jeito que ele sempre desejou para manter sua liberdade diante da prisão do lar. Só lamenta não receber tantos presentes como antes, porque ele adora receber presentes – ele se sente criança com eles. Mas talvez presentes sejam um corrente ou uma âncora. Com os amigos ele se sentia como que em família, mas como a família que ele elegera. No trabalho, tinha conseguido até um certo conforto financeiro. No amor, ele se realizara em cada olhar e em cada sentimento. Aliás, ele tem uma certeza: aprendeu a amar e é a única coisa que permanece dele mesmo que o faz ainda se reconhecer um pouco. Possivelmente por causa da violência da paixão mitigada pela suavidade do amor. Marcos se transformara e não era mais o mesmo – estava feliz consigo.
Um dia ele não se reconhece, disse-lhe o Outro meio relapso, em tantas adaptações ao meio ele acaba percebendo que tudo que mudara em si não era nada do que ele realmente queria. Não se reconhecia, se olhava no espelho e conversava com alguém que ele mesmo queria muito conhecer e que estava a sua frente todos os segundos, mas distante. Vou fugir e abandonar tudo – pensou. Vou procurar Lúcia, minha amiga, amante e, algumas vezes, “fuck body”. Lúcia não é mais Lúcia, ela não o entende mais e não partilha os seus ideais porque nem ele mesmo sabe mais quais seriam esses ideais, não há mais ideais. Um amor sem ideal não é amor, porque o próprio amor é ideal e não existe. A única coisa que sustenta o amor é o ideal, uma utopia de perfeição que alimenta um sentimento irreal. Enquanto irreal, é belo como toda beleza sublime. Ele concordou com o Outro, aquele do espelho. Mas Lúcia não existe então, ou é outra pessoa; Marcos também.
Marcos está cético, inveja a criatividade de Descartes que na sua dúvida, questiona até quem é. Mas Descartes tinha um castelo, Marcos mal tem um apartamento pequeno na parte rica de uma bairro pobre. Ele nem pode ter lareira, porque no Rio só faz calor e o ar-condicionado jamais substitui a beleza da lareira. O fogo é vida, mas o fogo no Rio representa um inferno mórbido que tira qualquer ânimo para se realizar tarefas banais quotidianas.
O corpo de Marcos também mudou. Ele está mais velho, mas não envelhecido. Sua alma, entretanto, deve estar fora do tempo porque ele não reconhece em que idade se encontra. Deve ser implicância do Outro, ele sempre faz isso, pensou Marcos. Ele já foi velho, uns 50 anos na alma, quando tinha apenas 15 anos. Ele foi maduro aos 25, pois tinha em corpo e alma 25 anos e um mundo a se desvendar. Agora Marcos tem 35, mas se sente com 15, com todas as incertezas de quem tem 15 anos.
Todos os dias ele tem que ir ao trabalho, mesmo lugar, mesmas pessoas, mesmas frases sem nexo e mesmas risadas sem graça – só os problemas não são os mesmos, talvez. Ele tem medo do trabalho porque se sente preso a ele, acha que está doente, talvez uma pequena anemia e uma viagem para descansar e revigorar o corpo com boa alimentação e bom ar poderia lhe ajudar. Ele tem medo de não dar certo e, assim, nem vai mais viajar.
Ele não gosta mais de suas roupas, de seus sapatos – horas para escolher o que vestir. Como é difícil escolher o menos pior para se sentir um pouco melhor. Isso cansa. Vou tomar um banho ou ver algo na internet. Talvez um amigo para conversar online. Existem vários, mas nenhum lhe interessa – tudo é o mesmo. As perguntas são sempre as mesmas, ele acha que poderia escrever um único e-mail e encaminhar a todas as pessoas que o chamam nas salas de bate-papo – porque são todas iguais a si mesmas e diferentes dele. Ele se sente fora da “rede”.
Ele acredita em tanta coisa que não estão mais em moda. Ele acredita na liberdade, mas essa é muito abstrata para se acreditar; ele crê no amor, no romantismo; todavia o que lhe pedem é uma boa dose de libido e algumas formas de gentilezas retribuídas. Ele vê com importância as responsabilidades do mundo adulto, mas não suporta mais nem um dia suas próprias responsabilidade livremente assumidas por ele mesmo.
Marcos chora – ele está de luto! Ele perdeu a si mesmo e nem sequer consegue se lembrar quem era ou como gostaria de voltar a ser. Pensa nos momentos passados que foram difíceis com nostalgia e vê sua falta de problemas como seu maior obstáculo. Ele está neurótico – um alívio! Pois sabe que a vantagem de reconhecer a neurose significa a realidade da inexistência da própria psicose. Suave tornado que acalma.
Marcos quer sair de casa, precisa de um tempo – é ridículo, pensa, eu moro sozinho. No fundo ele deseja sair de si, ou melhor, retornar a si mesmo, pois nada pior do que ser indiferente a si mesmo, um estrangeiro sob a própria pele.
A porta fechou, a luz só a do luar de inverno. Nem inverno há, pensa, 17 graus não fazem um inverno digno de um homem. Não pode voltar, precisa ir à frente e para isso busca desesperadamente sair, caminhar, reconhecer. Escolhe um casaco, mas todos são pesados demais para míseres 17 graus do inverno carioca. Ele ama a vida e não sabe onde encontrá-la em si. O casaco o sufoca – vai vestir uma malha, pois se sentir frio, saberá que ainda vive. Ele sente falta de si mesmo, de seus hábitos, de suas culturas, de seus risos e sorrisos e de suas lágrimas de contemplação. Chora sorrindo.
Chega de falar com esse cara do espelho.
- você é um bom companheiro, disse duramente e frio, mas às vezes suas idéias são tão confusas que me trazem uma inquietação insuportável. Vou fechar você nesse armário, escolher logo o pijama – pois você me impede de escolher a roupa para sair, veja o que aconteceu com o casado – e tentar dormir ou ler. Você fique calado, se conseguir. Se não, fale agora coisas boas ou que me ajudem a sair desse eu e voltar a mim original. Culpa sua! Responsabilidade minha! Somos cúmplices.
Marcos tem poucas certezas, pois se sabe querido por muitos e não por si, desejado por outros e não por si, admirado por alguns e desprezado por si, acolhido em muitas casas e expulso da sua.
Fechou a porta do armário – lavar o rosto pode ser um momento de reencontro. Ele é estrangeiro em si mesmo, mas precisamos imaginar Marcos novamente se adaptando, porque ele é feliz – só não sabe ainda.
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olá,
ResponderExcluiresta questão do estranhamento de si...penso que é um subterfugio para o medo do unico encontro que realmente importa em cada existir, aquele mais doloroso, encara-se.Encontrar-se consigo mesmo, nosso mais poderoso inimigo.