quinta-feira, 3 de abril de 2008
O real e o efetivo
Augusto está cansado. Cansado de acreditar em contos como esse. Ele prefere o realismo, mas se depara com uma grande interrogação: não sabe o que é real nem se é possível chegar até tal coisa. Ele se analisa e percebe que o real pode ter dois sentidos (pelo menos!). O real pode ser um fato, um acontecimento e pode ser também uma interpretação desse fato.
No primeiro, Augusto não deseja viver porque é muito distante daquilo que ele é, as pessoas vão e vêm, não permanecem. Acreditou em Clara, sua amante; acreditou em Carla, sua esposa; acreditou em todas – mas só acreditou e está esgotado pelo fato de tanto acreditar. Isso é a primeira realidade que Augusto não suporta porque lhe é muito pesada.
Depois Augusto analisa, interpreta, viaja no primeiro real. Já não é o fato, mas como o fato é vivido. As perdas são compreendidas tão bem como os ganhos. Mas são sentidas tão fortemente como os primeiros raios de sol por um jardim de inverno. Esse real não é realidade; trata-se de efetividade! Augusto também não suporta mais essa efetividade. O efetivo está inseparavelmente rememorando o fato e é o fato que o faz sentir. Ele não quer sentir. Queria somente acreditar, mas impossível para ele acreditar sem sentir.
Ele não quer se trair; quer acreditar que o fato leva ao efetivo; que o acreditar ao sentir – quer ser igual a todos e ficar no fato, fugir do efetivo – mas isso é muito leve para a alma pesada de Augusto.
Ele sai de casa, toma um chopp, conversa com desconhecidos – fatos, fatos, fatos. Só isso, repete a todo instante. Alguém pergunta seu nome: ele pensa em dizer um fictício, tipo comum como Zé. Mas isso já é efetivo porque nada mais efetivamente duro do que a fantasia. Ele diz, meio num tom tirolês, meio soletrando: Au-gus...to.
Sempre um novo fato – e uma nova efetividade. Conversa, tem medo, está inseguro: mas ele decidiu só mudar os fatos para ter outras interpretações e efetividades. Ele deseja fugir constantemente da máxima “é preciso que tudo mude para continuar o mesmo”. Não consegue! Só consegue ter a certeza que o fato e a efetividade anteriores ficaram no passado, passado que passa no momento a não mais existir porque simplesmente é passado. Augusto se sente maduro – terrivelmente maduro para falar a verdade consigo mesmo e encarar sua bondade como culpa própria.
Augusto está cansado. Quer outro chopp! Ele não é o Zé e Joana (quem é Joana? um novo fato exigindo nova efetividade) que conversa com ele, entretanto parece não entender. Garçon, uma vodka! Relaxa. Tchau Jô (essa intimidade o assusta). Caminha para casa com duas certezas: De um lado, Joana é excelente porque ouve e não entende – não porque não pode, mas porque não convém. De outro, a verdade de saber que ele mesmo é diferente pelo FATO de ser ele idêntico a si próprio. Respira aliviado e diz: diferença é fato; identidade, efetivo!
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Fala sério, seu moço... assim vc me enlouquece... espero que seja isso, mas prefiro a interpretação de Platão, da caverna... onde a realidade e o sonho são coisas distantes, mas fazem parte uma da outra...
ResponderExcluirIsso porque é assim mesmo... mudança de ciclo, mudança de rotina, mudança de padrões... e isso a gente tem que se obrigar duramente. Senão a gente fica ali, lamentando, chorando, esperneando por algo que já se foi...
Na na não... bora olhar pra frente, bora criar horizontes... Te adoro queridão!!!