Meus pés mudaram
e as idéias se cansaram.
Inversão de coisas
não havia escolhas.
Raios nascentes sorriam
ondas que traziam calma.
Tentei descansar a alma
mas vi que essas não queriam.
(Anônimo)
Conflitos e idéias entre pessoas são temas comuns desde o vindouro BBB da próxima terça aos papos cabeças, conhecidos popularmente como DR, entre casais.
Mas e os conflitos individuais que acontecem sem que ninguém os perceba, entre o Eu e o Mim? Loucura?! Pode ser, mas acredito que alguma vez na vida todos já tivemos um conflito dentro de nós mesmos. Alguma vez já fomos loucos.
No autoconflito toda decisão é pesada, o tempo não pára e uma decisão se impõe. Se pudéssemos, com certeza aumentaríamos o tempo ou decidiríamos com mais facilidade.
O poema acima pode ajudar a draticidade: idéias não se cansam, nem pés mudam - eis um conflito interno: nada fica claro! Por que temos esse sentimento (quero dizer, por que nos sentimos desse jeito)?
Talvez porque o limite entre liberdade e cuidado de si seja muito tênue. Entre nossas preocupações há nossos desejos e ansiedades e saber encontrar o ponto pode ser determinante na existência, ou ainda, em fazer da minha existência algo bom.
Ontem assisti "A desconhecida", de Giuseppe Tornatore.
Irena (Kseniya Rappoport) sai da Ucrânia para viver na Itália, em busca de uma vida melhor, mas acaba no caminho da prostituição, sofrendo explorações e violências. Depois de um tempo, ela consegue se desvencilhar dessa vida e arranja um novo emprego de babá, ganhando a confiança de seus patrões, mas o passado ainda a atormenta.
Mas o que atormenta Irena? Ela vendia seus filhos. Um tipo de mafioso sexual comercializava os filhos frutos da prostituição. Irena não parecia ligar muito para isso; mas quando engravidou de um homem que ela amava, tudo muda. Ela se torna empregada da casa em que acredita estar sua filha. Ela não mede esforços para ficar perto da filha (e de si mesmo), ainda que tenha que causar um acidente para tomar o lugar de uma amiga e assim seguir seus passos.
No final, a decepção é maior, mas a solução do tempo é o melhor resultado.
O conflito está muito bem expresso na atuação da Kseniya Rappoport (veja foto acima). O filme não choca tanto por ser uma história conhecida, mas por dizer respeito aos nossos próprios conflitos - uma história nossa.
O tempo do filme é criticável, mas os tempos do autoconflito também o são, até porque o tempo pode nem existir...
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