terça-feira, 25 de setembro de 2007
Festival do Rio - Crítica subjetiva
Ainda não vou escrever sobre os filmes no festival do Rio - nem sei se de fato vou me animar a fazê-lo. Mas vou usar esse espaço para um desabafo: a cultura shopping center invade o cinema. Não tenho nada contra ir ao shopping - aliás, vocês poderão me ver a qualquer momento em um shopping procurando algo. É prático, rápido - mas cansativo, sobretudo nas "epocas" de compras.
Aliás, não fui à Bienal do Livro por me sentir compelido a "consumir" cultura - ir a um lugar com centenas de pessoas, muitas com um ar "kult", desesperadas por comprar um último lançamento "secreto" de R$ 1,99 ou coisa parecida. Considero válido, entretanto, sobretudo para as crianças terem acesso ao universo das letras fora da prisão, digo, sala de aula. Mas adultos excitados, frenéticos - para a leitura ou para simplesmente comprar?
Quanto ao Festival de Cinema do Rio é diferente. Será mesmo? Não sei, não sei... Em um blog - muito bom por sinal - li que se detesta fazer listas, mas que no festival do Rio não há como evitá-las. Eu adoro listas - na camisa, às vezes no terno (se discretas) e, às vezes, para compras: elas me ajudam. Mas é realmente chato ter que escrevê-las. Mas para o festival é um frenesi, todos com papel e caneta na mão, desesperados, aguardando a bilheteria, como se estivêssemos na liquidação de uma grande loja de departamentos. Compreensível: quem quase não tem nada, agita-se com a possibilidade do muito! E acaba não aproveitando o necessário que se passa despercebido - às vezes.
Chamou-me a atenção ver os ditos "cabeças" nesse consumo cinematográfico - nada diferente dos shoppings: filas, pessoas avisando às outras pelo telefone (ah, o celular, que seria de um shopping hoje se as pessoas não pudessem avisar que a oferta imperdível de 15 minutos está no fim!), tumulto, desconforto e um sorriso fatigado por consumir algo que nem se tem certeza de ter valido o gasto. A proposta do Festival é interessante, criativa, lúdica e digna de incentivo; o comportamento de muitos cinéfilos, desagradável - sim, aqueles de boina que se consideram melhores do que nós, mortais, por saberem tudo sobre Fassbinder ou Bergman.
Mas como se afirmava num outro blog, não há solução aparente: temos que fazer listas! Eu digo: tenho que fazer "shopping" para ver filmes que quero ver: listas, comprar muitos ingressos antecipadamente e rezar para que não tenha um tumulto na entrada.
Domingo eu fui ao festival: queria ver 2 filmes (um sacrilégio, só quem não entende de cinema vê somente 2 filmes num domingo). O primeiro eu assisti e ao meu lado duas consumidoras, jovens senhoras intelectualizadas e laqueadas (!) que não paravam um segundo de comentar o filme entre si e com a incrível capacidade de me tirar o bom humor. Sinceramente, se esse é padrão de comportamento de quem entende de cinema para comprar 120 ingressos adiantados, eu prefiro continuar ignorante (mas educado!). O outro filme não consegui ver, paguei o preço de quem não se prepara para uma queima de estoque: estava sem ingresso umas duas horas antes e não havia mais. Tudo bem, c'est la vie que nous avons... Esperei meus amigos entrarem na sala, eles se preparam e tinham ingresso - senti-me relativamente mal por não ter o meu comigo. Mas também encontravam-se pessoas empurrando e querendo cortar a fila e me sinti incrivelmente aliviado por não ver o filme que gostaria muito de ter visto - enfim, minha experiência nesse dia foi paradoxal!
Ok, as listas! já fiz, mas considerei os horários nos quais imagino não passar pelo sentimento Cine-oferta de Natal (sic!) que vivenciei no domingo último. Acho que não vou conseguir, pois como mero mortal, se quiser entrar na dança, precisarei aprender os passos. Oxalá eu sobreviva, não use boinas quando fizer 30 graus e veja o filme por determinação da vontade e não por mero contágio afetivo. Se eu sobreviver, prometo escrever algo. Mas se não escrever nada, respeitem o trauma que será gerado em mim...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Crítica subjetiva?
ResponderExcluirNossa! Matou a pau uma penca de coisas que eu queria dizer há muito tempo e não tinha uma certa carga cultural que embasasse meu argumento! Foi brilhante na colocação! O fator "boina" no seu post foi sui generis! É praticamente um padrão de "kult" que as pessoas seguem: andar de boina é ser diferente, superior, exatamente como você colocou. E só tem uma boina na cabeça. Talvez só tenham isso mesmo na cabeça...
E outra coisa que eu achei muito importante: não é o fato do cinema em si no festival, mas começo a me questionar se está valendo pagr 8,50 ou na média, 8,00 para assistir a algum filme - meia entrada de cinema, sem contar a inteira - e achar que sairei com algum acréscimo. Ando me questionando isso.
Enfim, maravilhoso post e maravilhoso comentário acerca do cenário atual.
Abração!
o pior pra mim são as pessoas que dentro da sessão ficam conversando. Parece que Cinema no Festival vira lounge.
ResponderExcluirHmmm...cantinho interessante, adorei.
ResponderExcluirDe cara um post sobre dezenas de coisas que venho também pensando há tempos.
Paciência zero para os boinas, quase me orgulho de não ter visto filme algum.